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Saturday, November 28, 2020

Sem número, número 45: Instabilidade

A instabilidade é uma merda que faz mal. É um facto. E quem disser o contrário, é, no mínimo, idiota. Por isso, parece-me inevitável sentir um misto de estupefacção e raiva quando leio/ouço notícias em que um chico-esperto afirma que as novas gerações se caracterizam pela instabilidade, que é «um traço» que as distingue. 

Como não praguejar perante tamanha estupidez? Não se trata de «um traço» das gerações mais jovens, caros. É uma condição imposta. As novas gerações existem e têm de trabalhar num mundo onde a instabilidade lhes foi apresentada como algo inevitável. Dizer que, ao contrário das gerações anteriores, os jovens «preferem a liberdade», e que «não querem ter o mesmo trabalho para o resto das suas vidas», é (permitam-me usar a expressão estrangeira), a load of bullshit. Talvez grande parte das novas gerações optasse por um trabalho estável, ou uma vida estável, se tivesse sequer a possibilidade de escolher. Só que não tem, porque não existe. 

Somos atirados para a realidade pré-existente com o pouco que temos (formação, maturidade, experiência) e, a partir daí, é desenrascar. Como se jogássemos com as cartas que um qualquer croupier escolheu para nós, tendo de nos reger pelas jogadas dos adversários, que têm na sua posse todos os trunfos de alto valor, enquanto nós tentamos apenas somar meia dúzia de pontos. Não é fácil, não é agradável, e envolve, acima de tudo, sorte. Por isso, por favor, senhores, não sejam parvos e não nos tratem como se fossemos estúpidos.

Saturday, October 31, 2020

Sem número, número 44: The side effects of the aftershocks



Il tuffatore, Paestum

Será este um dos efeitos da pandemia? Este mergulho na memória? Recordamos mais, viajamos nas profundidades da memória porque "vivemos" menos? Convivemos menos, estamos com menos pessoas, os momentos que temos com estas poucas são mais raros e não viajamos, não visitamos outros lugares, ou os amigos que vivem noutros países. Por isso, dou por mim inevitavelmente a relembrar o que já vivi, o que já aconteceu e foi emocionante, inesquecível, até. 


Vasculhamos livros, caixas, cartas, postais. Vamos às pastas do computador, os baús modernos. Recuperamos fotos, vídeos, faixas de música. E mergulhamos nas recordações do mesmo modo que se entra nas águas quentes do Mediterrâneo. Sentimos a diferente temperatura, o mar que molha a pele e flutuamos, essa maravilhosa sensação que evoca uma dimensão distante. Recordar é assim. Produz efeitos semelhantes aos de uma droga. E, à semelhança das substâncias psicotrópicas, infelizmente (muito infelizmente), não podemos ceder o volante à memória. Corremos o risco de ficar viciados no passado, no que fomos, no que sabemos agora ter sido o nosso melhor, o tempo em que fomos belos e felizes. 


Tomamos decisões no presente que serão em breve passado, tentando trilhar um futuro que nos seja confortável. Mas nunca sabemos exactamente o que estamos a fazer. Viver é um acto de fé, em si. Esperar o melhor (das decisões, das pessoas), sabendo que não sabemos nada, nunca sabemos nada (como poderíamos, se não conseguimos prever o futuro?). 


Se temo pelo futuro? Temo. Muito. Racionalmente, sabíamos todos - excepto os cépticos tontos - que estes meses de Outono (e o Inverno que se aproxima) seriam assim, de contornos difíceis e nebulosos. Mas eu temo, à mesma, porque o futuro é uma incógnita. Temos de sair de casa, viver, mas o medo de transportar algo invisível connosco que acidentalmente mate toda a nossa família nuclear, é assustador. Muito assustador. E depois, como serão os próximos meses? Haverá um emprego para trabalhar? Dinheiro para viver? E alegria? 


O optimismo começa a esgotar-se. E, mesmo aguardando o ano inteiro pela chegada da quadra natalícia, só posso dizer que não consigo sentir-me feliz. Não consigo entender estas promoções, campanhas para comprar presentes (as Black Friday e Cyber Mondays desta vida) quando a economia se afunda e despoja tantos do trabalho, do seu ganha-pão. Este será um Natal difícil. E talvez nem o venha a ser tanto para mim. Mas para outros. 


A instabilidade abala-me o estômago. O medo entra na pele e turva o olhar. É isso. Não consigo olhar para o futuro com os óculos do optimismo. E talvez seja por isso que me vou refugiando num passado que foi feliz e trouxe amor. Algo raro e com o qual não sou presenteada com frequência. Talvez seja por isso que busco conforto na memória. E nas histórias. 

Wednesday, October 21, 2020

Equilíbrio

Se fosse fácil encontrar um equilíbrio, todos seriamos acrobatas e viveríamos no ar, entre cordas e piruetas. Seria fabuloso, assim uma espécie d'O Barão Trepador circense. Mas não é o caso e o narrador não é Italo Calvino: não é fácil manter o equilíbrio e, por maior que seja o esforço, os pés falham e, quando se dá conta, estamos na rede (quando existe uma).

O equilíbrio é o «estado neutro entre duas forças opostas», define a Treccani. É o que, a meu ver, deveria ser sinónimo de «ideal normal». Ser equilibrado deveria corresponder à norma. Seguir a direito pelo estreito caminho de cabras neste desfiladeiro pelo qual caminhamos, sem escorregar ou cair. Como os acrobatas, deveríamos tentar manter-nos ali, na corda, pé ante pé, com a respiração certa, até chegarmos ao outro lado. Mas o equilíbrio não é fácil, ao contrário da queda.

Associo, assim, o conceito de dualidade, ao equilíbrio. O que me agrada. Apesar do equilíbrio estar também muito próximo da imprevisibilidade. O que é, para mim, um dos poucos confortos que temos - se pensarmos que temos apenas uma única certeza trágica. Sabemos que vamos morrer. Isso e os impostos são os únicos elementos que temos como adquiridos. O resto é uma incógnita. 

Os optimistas sairão à rua em festa perante a constatação, enquanto os pessimistas optarão por ficar em casa, não vá o diabo tecê-las: todos sabem que o mafarrico se esconde atrás da porta, normalmente do lado de fora, claro.

Não sou optimista, mas a fatalidade também me parece algo de exagerado, como os poemas de amor dos autores românticos alemães. Esse será o meu único equilíbrio: esperar sempre o pior cenário possível com um fio de esperança. Aí fico no meio. Não por ser onde está a virtude, mas porque, excepcionalmente, procuro distribuir equitativamente o peso, de modo a tocar em ambos os lados. Excepcionalmente. Eu, que sou uma criatura de forças opostas que torturam os poucos que de mim se abeiram. Não concebo, contudo, outra forma de viver que não esta, de oposto em oposto, dando o meu melhor para me equilibrar e não cair. E, se tiver de cair, tentando não o fazer de vestido e de perna no ar (situações que já ocorreram concomitantemente, à porta de casa).

Friday, October 2, 2020

Sem número, número 43: A vida, modo de usar

«Parabéns. É o feliz proprietário de um corpo humano. A partir deste momento poderá executar todo um conjunto de actividades, como respirar, comer, dormir, falar, pensar (diferentes níveis dependerão do modelo em questão), andar, entre tantas outras. Iremos guiá-lo passo a passo para que possa levar a cabo todas estas funções em segurança. Sem se esbardalhar.»

Não, não se trata do parágrafo inicial de A vida, modo de usar, de Georges Perec, mas é assim que imagino que deveria ser a introdução do manual de instruções com o qual todos deveríamos vir equipados à nascença. Mas, tal como uma compra manhosa no OLX, também o nosso binómio consciência-corpo chega à idade adulta sem fazer a mínima ideia como operar este aparelho. 

Haverá os mais tech-savvy que alegarão, à partida, que está tudo controlado, já leram muito sobre o funcionamento e é fácil: chegas aos 30, emprego, namorado/a, casamento, filhos e está feito. A partir daí é deixar correr o software e confiar na qualidade do hardware

Outros, como eu, por mais que leiam o manual e peçam ajuda em fóruns online (e offline)continuam com dificuldades em operar o aparelho. É que, quando se pensa que as atualizações foram feitas e o hardware é bom, subitamente, o programa começa a dar erro. E, com frequência, o apoio técnico não consegue ajudar. Mesmo que equipamento se encontre dentro da garantia.

Era bom que a vida (e nós) fosse(mos) um pouco assim, à semelhança de um computador (ou um outro aparelho qualquer), e pudéssemos chamar um técnico que nos ajudasse a perceber porquê, de repente, nada funciona (era bom, excepto aquela parte do «sair e voltar a entrar», ou «desligue e volte a ligar». Acho que não ia dar bom resultado). 

«Relationship malfunction? Epá, espera: vamos ver o que é que está a dar erro.» E vinha daí o técnico, analisava o código, pensava, corria uns testes e puff, ia-se a ver, era um bug e a coisa resolvia-se. Só que não. A verdade é que estamos sós, estamos rodeados de bugs e só nos temos a nós próprios para os detetar. Ou para os assumir.

Thursday, October 1, 2020

Sem número, número 41: Memória selectiva

Recordo-me de ter lido algures, há não muito tempo, que a memória não é uma coisa estática e se transforma com o passar do tempo. Isto é, os acontecimentos, como os recordamos, não serão iguais na nossa mente aos 30 ou aos 60, porque a memória trabalha sobre eles (creio eu) de acordo com as nossas vivências e a passagem do tempo e, possivelmente - I ain't no neurologist - com a morte dos pobres neurónios. [Acho que era maizómenos isto que o artigo que li dizia.]

Isto, enquanto leiga e por meio do senso comum, faz todo o sentido para mim: os eventos que nos trazem felicidade, certamente serão recordados de modo florido, bonito, com um sorriso na cara. As tragédias, essas, serão lembradas com tristeza. Ou serão, até, simplesmente esquecidas.

É curioso como os sentimentos agem e influenciam as recordações. E não é, então, de espantar, que duas pessoas, que partilharam um acontecimento, descrevam o sucedido de modo tão díspar. 

Lá em casa este fenómeno constata-se ao domingo, normalmente durante o almoço. Não há nada que mais me maravilhe e tire do sério do que as versões que a minha mãe tem de alguns eventos da minha vida. O modo como os descrevemos fazem pensar que uma de nós estaria embriagada na altura (provavelmente eu, mas apenas por uma questão de estatística). No entanto, o facto de a minha mãe ter 63 anos e eu 35, e termos cérebros em condições diferentes deve estar na origem dessa diversidade.

Outro aspeto que me maravilha é o modo como as memórias dolorosas se esquecem perante as felizes. Exemplo: uma mulher dá à luz uma criança após horas de dores intensas e horríveis. Passado um ano ou dois, a mulher decide ter outro filho e sujeitar-se novamente a longas horas de sofrimento físico para pôr o bebé cá fora. Não creio que haja muitas situações em que uma pessoa mentalmente sã decida sujeitar-se a uma dor que já conhece, ou a uma situação que sabe que será difícil fisicamente (os adeptos da cirurgia estética também o fazem, sim, mas eu referia-me a «pessoas mentalmente sãs»). 

Segundo consta, a lembrança da dor vai-se diluindo e, as memórias felizes acabam por se sobrepor à recordação das horas de sofrimento. (Claro que não sucede em todos os casos, haverá mulheres que tiveram partos tão terríveis que nunca mais quiseram arriscar repetir a experiência. Mas isso é como tudo na vida. Há a maioria e depois há as excepções. Adiante.) Creio que há um mecanismo biológico ligado a isto, que serve para assegurar a perpetuação da espécie. O que faz todo o sentido.

O que me surpreende é quando não se trata de manter a presença humana no planeta e, ainda assim, a mente age de modo semelhante com coisas tontas. Como adoçar as memórias de um relacionamento tumultuoso: quando damos conta, ainda que, factualmente, 90% do tempo tenha sido passado a discutir, os 10% de arco-íris e unicórnios (ou sunshine and rainbows) prevaleçam sobre tudo o resto e seja isso que guardamos do/da mais-que-tudo. Mesmo que ele/ela seja uma besta.

Pior, só mesmo quando a memória relega para segundo plano as lembranças do sofrimento e rejeição passados e dá lugar aos (poucos) momentos felizes que se tiveram, simplesmente porque nos sentimos vulneráveis no presente. E depois, damos por nós a pensar que talvez não fosse má ideia enviar uma mensagem, ou escrever uma carta à besta que nos deu com os pés. 

Enfim. É tudo espectacular, não é?

Saturday, September 26, 2020

Sem número, número 39 (mas que devia ter outro número)

Tentei, há algum tempo, deixar de me pensar em demasia. Porque consome muito tempo e gera ansiedade. É melhor pensar no que temos em redor. Ou melhor: em quem nos rodeia.

Durante três anos, quem me rodeava e me mantinha os pés assentes no chão, esteve ausente. Cedo me apercebi do impacto que essa ausência tinha na minha percepção da realidade. Todos precisamos de uma espécie de bússola moral, que não é, no meu caso, uma simples bússola moral. É uma real bússola humana, que me auxilia a encontrar o referente externo do "outro". Para uma pessoa egocêntrica, uma destas bússolas é essencial. Ou, pelo menos, é-o para uma egocêntrica que não quer perder o Norte.

A minha irmã é a minha bússola. Se consigo, apesar das minhas falhas, ver através de olhos alheios, é graças a ela. Nunca deixou de martelar esta dura cabeça, mesmo nos momentos mais críticos, e conseguiu sempre trazer-me de volta à realidade. E fazer-me compreender o mundo a partir do olhar dos outros.

Por isso, a poucos dos dias do seu aniversário*, escrevo estas palavras lamechas. Que são sobre mim (ou não fosse eu uma criatura que acha que é tudo sobre mim - mesmo os incêndios na Califórnia ou os terramotos na Nova Zelândia), mas não existiriam sem a minha irmã.

E é isto. Feliz aniversário, Sorella.


*Escrevi isto quatro dias antes do aniversário, mas a vida, às vezes, mete-se no meio das palavras, por isso vai só agora.

Tuesday, September 1, 2020

Sem número, número 37 meets Cenas da vida do campo #3

Começar o dia com uma ressaca de sono, álcool, ecrãs a mais. Sem vontade de trabalhar ou ler. Procurar a sequência final do Dredd, porque alguém a recordou recentemente, e contemplar uma figura humana em queda durante mais de um minuto.

Também eu estou assim. Em queda, flutuante, numa manhã que acordou como eu, cinzenta e distraída. Falta café, o combustível dos dias. Lá fora as andorinhas esvoaçam desorganizadamente, desinteressadas do meu olhar e do que quer que seja que se passe deste lado do vidro.

And yet, sinto-me bem. Nada me parece particularmente importante nesse momento, além do meu olhar. Ainda que vasculhando textos antigos e ideias, que, apesar da imaturidade, vinham carregadas de emoções e sentimentos, sinto-me bem. Apesar desse confronto. A única diferença é que,agora, as palavras vêm devagar, preguiçosas e é preciso abrir caminho pelas camadas de indiferença que fomos assentando para que fosse possível continuar avante.

Mas afinal, estamos vivos. É um engano. Ludibriamo-nos. Quando confrontados com o objecto que origina a dor, uma torrente sentimental irrompe de nós, como magma de um vulcão em erupção. Felizmente, tal como as erupções e os terramotos servem para aliviar as tensões, também o confronto tem a sua utilidade. Aparentemente, as colinas do Etna são terreno fértil para o cultivo da vinha. E foi graças à erupção do Vesúvio em 79 AD que Pompeia e Herculanum se mantiveram preservadas até hoje. Pelo meio morreram centenas de pessoas, mas, vá, we all die, right? [Sarcasm alert.]

Talvez seja necessário magoar e ser magoado. Quando era criança, avisavam-me frequentemente dos perigos que poderiam acontecer ao saltar de muros. Nunca prestei muita atenção, até ao dia em que parti a cabeça. Mas depois do susto, da dor, do sangue, dos pontos a sangue frio, nunca mais voltei a saltar muros sem avaliar onde iria aterrar. E, desde então, não voltei a partir a cabeça. Já quanto aos muros, não sei se voltaram a partir cabeças. Talvez. Quem sabe?

Monday, August 31, 2020

Sem número, número 36: Crer para ver

Reza a Bíblia que São Tomé, um dos doze apóstolos, duvidou da ressurreição de Jesus e só ficou convencido da veracidade do sucedido após tocar as chagas de Cristo. Diz que é daí que vem a expressão «ver para crer». 

No entanto, existe um fenómeno muito mais frequente que contraria a expressão e arruína mais vidas. O 'crer para ver'. É quando a pessoa acredita que alguém é de determinado modo, ainda que todas as suas atitudes contrariem, ou pouco corroborem a ideia. Ao contrário de São Tomé, quando a pessoa crê para ver, não há nenhuma imagem, nem explicação que ajude o crente a ver a realidade, que, em quase 100 por cento dos casos, não corresponde à crença. 

Dir-se-á, «Quem nunca?». De facto... Quantos de nós, pessoínhas, nunca viram reciprocidade de sentimentos porque quiseram acreditar que existia? Contudo, perante o olhar geral, diz que nunca houve registo algum dessa reciprocidade. But yet, in the eye of the beholder... 

Destrói sentimentos, arruína vidas... Mas há quem consiga, ao fim de algum tempo, perceber que a crença não corresponde à realidade partilhada. A frustração ajuda a abandonar a crença. Outros, nunca hão-de desistir, nunca perceberão e continuarão, até ao fim dos seus dias, a culpar o outro, que, naturalmente, é louco. Que outra explicação pode haver, se os seus vários comportamentos não correspondem à crença? Que outra explicação pode haver para alguém que sempre se acreditou que fosse Y, ainda que sempre se tenha comportado como X? Louco, naturalmente. Ou «a atravessar uma fase difícil». É sempre uma fase, porque acreditam, como quem acredita num deus que não vê, que a pessoa é Y. Embora tudo grite X.

Thursday, August 18, 2016

Sem número, número 33

Passaram já 11 meses desde o último post. Serve o presente para assinalar que Agosto é o pior dos meses. De há alguns anos para cá que a tendência se confirma. Sim, pode ser o mês com o melhor dia para casar - assim o diz o Quim Barreiros (é a nota humorística do post), mas a verdade é que, se 2016 está a ser um ano de más notícias, Agosto consegue concentrar as piores.

Faltam pouco mais de dez dias até ao final do mês e eu chego a temer o que eles trarão. Nada de bom, provavelmente.

Wednesday, January 21, 2015

Cenas e coisas que tais aleatórias #3

No consultório da médica, durante a consulta semestral ou anual, esta lê o relatório do exame:

Médica: «Ora bem, então o relatório anterior refere 16 [nódulos], este menciona um, dois, três, quatro... [conta até 11], são 11, neste, e os restantes são de pequenas dimensões...»

Ela: «...»

Médica: «Olhe lá, como é que consegue? Como consegue acomodar tantos em cada mama? Tão arrumados?»

Ela: (Silêncio.) «São mamas IKEA.»

Médica: (Ri-se.)

Ela: (Se o tédio matasse...)

A consulta avança, a médica continua a ler o relatório e tira notas.

Médica: «E engravidar, já pensou quando?»

Ela: «...»

Mãe: «Ah, para isso ela primeiro tem de arranjar namorado...»

Ela: (Porquê, Mãe, porquê?! Bom... parecendo que não, facilita o processo...)

Médica: «Bom, não há nada provado, mas parece que quando ocorre uma revolução hormonal, como numa gravidez, estas coisas podem alterar-se e desaparecer, até.» (Wink, wink, say no more, say no more...)

Ela: (Acho que prefiro os nódulos aos filhos...)

Friday, September 26, 2014

Sabes que foi uma semana boa porque...

... todos os dias tiveste tarefas/compromissos a cumprir. A vida não se faz apenas de momentos bons (isso é só para os privilegiados), mas o importante é avançar, deixar para trás a tristeza e a mágoa. Correr, sentir o vento na cara, dormir numa cama com lençóis lavados*, cozinhar algo delicioso para o jantar, ler um bom livro, podem parecer pequenas tarefas, pequenas coisas, mas os dias constroem-se através de pequenas peças. Se o demónio está nos detalhes, também a felicidade reside nos pormenores, nas pequenas coisas.

Claro que há dias maus, dias de merda, ou apenas dias em que a maior parte do tempo se passa em sofrimento ou imersa em tristeza. Mas é graças a esses dias que, quando o equilíbrio é reestabelecido, a felicidade regressa e a serenidade se impõe.

A solidão não é uma tragédia. A solidão é uma necessidade. Não conheces outro lugar onde seja possível encontrar-te senão aí. Mas isso não significa que estejas só: a família que te caiu na rifa até é catita e os poucos amigos que tens são de superior qualidade. De tal forma que, se fossem restaurantes, facilmente lhes atribuiriam três estrelas Michelin.

Se isso não é ser afortunado, então não sabes o que poderá ser.

Monday, August 25, 2014

Sem número, número 21

A minha reacção perante atitudes infantis ou quando me fazem perguntas estúpidas:



Expect me dressed like this next Halloween. -.-

Friday, November 8, 2013

Cenas e coisas que tais aleatórias #2

Em Heidelberg, no topo da montanha (ao qual demoraram mais de duas horas a chegar), caminham até chegar a uma escadaria, para Ela desconhecida.


Ela: «Ah, que bonito. E no topo da montanha. Para que foi construído?
Ele: «Era um anfiteatro nazi.»
Ela: ...

Monday, January 21, 2013

Cenas e coisas que tais aleatórias #1

No consultório da médica endocrinologista, que consultou para esclarecer a questão dos valores anormais que surgiu nos resultados dos exames sanguíneos mais recentes:

Médica: «Bom, então o que a traz por cá?»
Ela: «Eh, doutora, nos últimos exames que fiz, estes valores aqui  (aponta) surgem muito abaixo do que é considerado normal e queria saber o que significa...»
Médica: (ainda sem olhar para a ficha de paciente) «Hum, pois... você veio cá da última vez por causa do seu problema... hum... você tem um problema que provoca alopécia, não é?»
Ela: (confusa) «Não... vim cá por causa da tiróide...»
Médica: «Ahhhh, é verdade, sim, já me lembro. Sabe, é que vi a sua franja tão perfeita, tão direita, que pensei que usasse peruca!»
Ela: «...»