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Tuesday, September 1, 2020

Sem número, número 37 meets Cenas da vida do campo #3

Começar o dia com uma ressaca de sono, álcool, ecrãs a mais. Sem vontade de trabalhar ou ler. Procurar a sequência final do Dredd, porque alguém a recordou recentemente, e contemplar uma figura humana em queda durante mais de um minuto.

Também eu estou assim. Em queda, flutuante, numa manhã que acordou como eu, cinzenta e distraída. Falta café, o combustível dos dias. Lá fora as andorinhas esvoaçam desorganizadamente, desinteressadas do meu olhar e do que quer que seja que se passe deste lado do vidro.

And yet, sinto-me bem. Nada me parece particularmente importante nesse momento, além do meu olhar. Ainda que vasculhando textos antigos e ideias, que, apesar da imaturidade, vinham carregadas de emoções e sentimentos, sinto-me bem. Apesar desse confronto. A única diferença é que,agora, as palavras vêm devagar, preguiçosas e é preciso abrir caminho pelas camadas de indiferença que fomos assentando para que fosse possível continuar avante.

Mas afinal, estamos vivos. É um engano. Ludibriamo-nos. Quando confrontados com o objecto que origina a dor, uma torrente sentimental irrompe de nós, como magma de um vulcão em erupção. Felizmente, tal como as erupções e os terramotos servem para aliviar as tensões, também o confronto tem a sua utilidade. Aparentemente, as colinas do Etna são terreno fértil para o cultivo da vinha. E foi graças à erupção do Vesúvio em 79 AD que Pompeia e Herculanum se mantiveram preservadas até hoje. Pelo meio morreram centenas de pessoas, mas, vá, we all die, right? [Sarcasm alert.]

Talvez seja necessário magoar e ser magoado. Quando era criança, avisavam-me frequentemente dos perigos que poderiam acontecer ao saltar de muros. Nunca prestei muita atenção, até ao dia em que parti a cabeça. Mas depois do susto, da dor, do sangue, dos pontos a sangue frio, nunca mais voltei a saltar muros sem avaliar onde iria aterrar. E, desde então, não voltei a partir a cabeça. Já quanto aos muros, não sei se voltaram a partir cabeças. Talvez. Quem sabe?

Monday, August 31, 2020

Sem número, número 36: Crer para ver

Reza a Bíblia que São Tomé, um dos doze apóstolos, duvidou da ressurreição de Jesus e só ficou convencido da veracidade do sucedido após tocar as chagas de Cristo. Diz que é daí que vem a expressão «ver para crer». 

No entanto, existe um fenómeno muito mais frequente que contraria a expressão e arruína mais vidas. O 'crer para ver'. É quando a pessoa acredita que alguém é de determinado modo, ainda que todas as suas atitudes contrariem, ou pouco corroborem a ideia. Ao contrário de São Tomé, quando a pessoa crê para ver, não há nenhuma imagem, nem explicação que ajude o crente a ver a realidade, que, em quase 100 por cento dos casos, não corresponde à crença. 

Dir-se-á, «Quem nunca?». De facto... Quantos de nós, pessoínhas, nunca viram reciprocidade de sentimentos porque quiseram acreditar que existia? Contudo, perante o olhar geral, diz que nunca houve registo algum dessa reciprocidade. But yet, in the eye of the beholder... 

Destrói sentimentos, arruína vidas... Mas há quem consiga, ao fim de algum tempo, perceber que a crença não corresponde à realidade partilhada. A frustração ajuda a abandonar a crença. Outros, nunca hão-de desistir, nunca perceberão e continuarão, até ao fim dos seus dias, a culpar o outro, que, naturalmente, é louco. Que outra explicação pode haver, se os seus vários comportamentos não correspondem à crença? Que outra explicação pode haver para alguém que sempre se acreditou que fosse Y, ainda que sempre se tenha comportado como X? Louco, naturalmente. Ou «a atravessar uma fase difícil». É sempre uma fase, porque acreditam, como quem acredita num deus que não vê, que a pessoa é Y. Embora tudo grite X.

Monday, August 10, 2015

Sem número, número 31

Já muito além dos 30, resta apenas dizer que tive o azar (ou a sorte, sabe-se lá) de nascer num sítio em que o vinho, por mais rasco que seja, consegue ser bom.

Sunday, January 11, 2015

Sem número, número 30

Post 30, quase a chegar aos 30, e uma brilhante conclusão sobre o state that I am in (e nem sequer me encontro a ouvir Belle and Sebastian):

Do que eu preciso mesmo, é de uma semana a esquiar e a encher a cara. Todos os dias. A partir das 7:00. Nada que saia da minha rotina, portanto.

Nunca o cansaco psicológico se fez sentir tão físico.

Thursday, December 18, 2014

Sem número, número 29

Muita saúdinha para os senhores da Marvel, é o que lhes desejo. Uma taça de tinto e uma receita deliciosa juntamente com isto = remédio santo para dias em que o cérebro entra em sobrecarga depois de uma semana passada em cima de uns saltos altos. Uma Awesome Mix Vol.1 por dia nem sabe o bem que lhe fazia.

    

Thursday, November 6, 2014

Sem número, número 28

Pensando em canções que devem ser (mandatory) cantadas em karaokes, por pessoas com um elevado teor alcoólico no sangue, lembrei-me disto. E depois tive medo, porque nunca pensei que a lycra pudesse ter integrado a moda masculina fora da actividade desportiva. Oh dear.

 

Friday, October 10, 2014

Sabes que a semana foi uma merda mas...

... ainda há salvação porque, apesar das dores da velhice:

1. Existem farmacêuticas e a droga que produzem é legal e acessível;
2. Há terapeutas que são qual anjos de salvação e cujas mãos fazem maravilhas;
3. É sexta-feira (!!!) e amanhã é sábado e não se trabalha e pode-se dormir e pode-se ir à cabeleireira, esteticista e outras coisas não fundamentais para sobreviver, mas que fazem bem à alma.

Tuesday, September 2, 2014

Sem número, número 24

Há quase década e meia  acreditava firmemente que existia um Nino Quincampoix do outro lado da rua, noutra cidade, noutro país (noutro planeta, até), talhado perfeitamente para mim. Hoje em dia já me contento em saber valsar ou apenas dançar uma mazurca.

 

Monday, September 1, 2014

Sem número, número 23

Porque é que os dias, mesmo que se iniciem com Monty Python, terminam inevitavelmente com Bohumil Hrabal?

Thursday, July 11, 2013

Sem número, número 17

Tanto por resolver e já tão próxima dos 30. Às vezes questiono-me se além dos problemas imediatos e quotidianos, que resultam das vivências que acumulamos, será possível resolver questões mais profundas, as que datam de décadas anteriores a esta e sobre as quais partimos durante anos para agirmos em relação aos outros e a nós próprios. Temo um pouco - sempre fui muito medrosa, não é novidade temer o que quer que seja - não conseguir alterar esses pedregulhos da minha conduta. Mas depois penso no Acordo Ortográfico e ganho algum ânimo: durante quase 22 anos aprendi a escrever de uma forma específica e pratiquei essa ortografia com afinco. Depois de ter sido forçada a recorrer ao Novo Acordo Ortográfico (NAO), fui interiorizando as mudanças nas palavras - físicas apenas, salve-se isso - e, apesar da minha resistência, dou por mim muitas vezes aplicando a nova ortografia. Nunca pensei dizer isto, nem nunca pensei abençoar o NAO, mas hoje, ao reflectir sobre o ego (o conceito do Freud), senti esperança ao pensar no modo como escrevo as palavras que mudaram. E talvez mesmo a forma de agir mais errada que esteja enraizada possa, na verdade, ser alterada. É apenas uma questão de treino. E de erosão - um bonito fenómeno geológico. Além disso, a minha avó sempre disse: «Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura».