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Thursday, January 14, 2021

Frase do Dia #65

Folheando livros lidos há quase uma década, no tempo em que o Umberto ainda era vivo, deparo-me com esta tirada do Eco:

Como sempre, Umberto Eco (em A Passo de Caranguejo) a definir de forma simples e certeira as coisas que importam.


Sunday, November 29, 2020

Frase do Dia #64

Às vezes, a pessoa cruza-se com um gajo que percebe das merdas. Outras, descobrimos miúdas que sabem como é isto de ser pessoa:




Excerto de «Vampires versus Werewolves», em Poukahangatus, de Tayi Tibble

O mundo é um lugar muito grande, cheio de diferenças. Mas, estejamos cá em cima ou lá em baixo, em Portugal ou na Nova Zelândia, o que sentimos é mais parecido do que aquilo que pensamos. 

Sunday, November 8, 2020

Frase do Dia #63

Às vezes, a pessoa cruza-se com um gajo que percebe das merdas:



No meu peito não cabem pássaros, Nuno Camarneiro. 

Monday, October 5, 2020

Blogception#3: Um blogue dentro de um blogue

Agora que o Outono se instalou em pleno, dei por mim a pensar naquele texto produzido para a minha estreia na Preguiça-Mãe de Leiria e publicado no tasco Minudências algures na segunda quinzena de Setembro de 2015.

RECOMEÇAR

Há quem diga que os começos são difíceis. Abrir um novo caminho, dar início a uma nova tarefa. Eu ouço e penso nos recomeços. Os inícios têm a vantagem se colocar à nossa frente, sem mácula, limpos, contendo em si toda a esperança, toda a energia e todo o optimismo do que é novo.

Os recomeços são mais complicados. Repousam sobre obras inacabadas, a maior parte das vezes estão cheios de falhas, gralhas, erguem-se sobre erros do passado, obrigando a um esforço extra, frequentemente executado de forma contrariada.

E ainda assim, prefiro-os. Há nos recomeços a possibilidade de aprender com o que já está feito, mesmo que cheio de imperfeições, pejado de falhas. Não quero depositar toda a minha fé nos começos limpos, perfeitos. Desejo um recomeço que me obrigue a ser melhor, a evoluir. A aperfeiçoar-me, não obstante o que me antecedeu. Há uma certa beleza inerente aos Prisioneiros inacabados de Michelangelo Buonarroti que o David, do topo do seu pedestal, no seu esplendor marmóreo simplesmente não contém.

O Outono é para mim, então, a época dos perfeitos recomeços: não é o Ano Novo, o civil, ou o chinês, ainda que o ano se aproxime do seu fim e pouco falte para o seu término. No entanto, o Outono representa o final do Verão, que constitui para muitos o culminar do calendário.

A excitação do Verão desaparece, as horas de luz diminuem e as árvores, esses seres sábios (que Tolkien bem soube reconhecer), preparam-se para o tempo que há-de vir e recolhem-se à sua tranquilidade. É tempo de reflectir sobre o que fomos e fizemos nas duas últimas estações. Fomos bons para o(s) próximo(s)? Rimos o suficiente? Teremos sido felizes na conta certa?

Entro no Outono de férias, sem o rodopio do calor do Verão e a agitação das hormonas. Chego ao Outono com a tranquilidade das temperaturas frescas e o vento que agita os cabelos e as folhas que cobrem as calçadas.

Chego às férias ao mesmo tempo que a rentrée literária invade as livrarias. Folheio catálogos, leio listas, mas não há muito que me entusiasme. Noto um conjunto de títulos que assinalam o fim da Segunda Guerra Mundial e evocam os horrores do Holocausto. Não sei se precisamos de mais livros sobre a miséria e a crueldade humana. Num momento como este, talvez fosse mais importante celebrar a bondade dos homens. Não que ela abunde. Mas por isso mesmo: porque deve ser valorizada e apreciada e não nos devemos deixar normalizar pela banalidade do mal.

Há um livro, Uma Cana de Pesca para o Meu Avô, de Gao Xingjian, o primeiro Nobel chinês (mas que não é tido como tal por se encontrar no exílio há muitos anos), que embora não sendo um livro extraordinário, tratando-se de uma colecção de breves trechos, tem passagens belas. Numa delas, de que me recordo frequentemente, em que o avô dialoga com o neto (se a memória não me atraiçoa) diz-se que os homens são maus e que o avô prefere os tigres aos homens maus. Ainda assim, ele prefere debruçar-se sobre a «bondade do coração humano». E talvez também nós o devêssemos fazer. Não só agora, mas para sempre.


(Com algumas alterações.)

Monday, September 28, 2020

Frase do Dia #62

Do amor, segundo Amerigo Ortea, em O Dia de um Escrutinador, por Italo Calvino:


Refere-se ao amor paternal, mas diria que se pode usar com a finalidade que se desejar. 


Wednesday, September 23, 2020

Blogception#2: Um blogue dentro de um blogue

A propósito da poesia e da minha relação com ela, lembrei-me ontem que já havia abordado o assunto há uns anos. Mais precisamente no início de Novembro de 2013, no Minudências

ENTRANDO DOCILMENTE NESSA NOITE SERENA

Ou, pervertendo o original de Dylan Thomas: «do go gently into that good night». E segue a declaração de interesses: não sou amiga da poesia. Não tomo chá com ela ou vamos juntas às compras. Não somos amigas, pronto.

Não nos relacionamos mal, contudo. Gosto dela e até aprecio a sua companhia. Mas só às vezes. É como aquele «amigo/a» de quem gostamos, até, mas com o qual temos medo de passar demasiado tempo, porque não queremos apanhar seca. [OK. Uma pessoa assim como eu.]

Ainda assim, já li Dylan Thomas, Wislawa Szymborska, Herberto Hélder, um poucochinho de António José Forte, Al Berto, e.e.cummings, William Blake e mais uns quantos, creio. Estes são os que moram nas minhas estantes ou que por lá já passaram (excepto o António José Forte).

Enfim. Não sei muito sobre ela, a verdade é essa, muito embora já tenhamos sido apresentadas há muito tempo. O que se passa é que as nossas relações não começaram da melhor forma.

Deixem-me ser exacta: o problema da minha ausência de intimidade com a poesia não vem do momento em que nos conhecemos. Quando me foi apresentada, até correu tudo bem: devia ter entrado há pouco tempo na idade dos dois dígitos e lia alguns clássicos portugueses, como Camões ou Florbela. Não me recordo de reflectir muito sobre o assunto ou tema, mas soava bonito.

Entretanto cresci mais uns anos e acabei por ter Português A, no ensino secundário. O extermínio da beleza da poesia e a professora da altura conduziram a um afastamento. Com alguma dor, até.

Só recentemente, há cerca de quatro anos, por influência de um caro amigo, recuperei o velho interesse e recomecei a ler poesia. Sempre por recomendações. Nunca nos tornámos íntimas, e achei melhor confiar no conselho de quem é leitor mais experiente do que eu.

Portanto, não sou a melhor pessoa para avaliar a qualidade de um texto poético. Mas diz que anda por aí muito poeta nacional de categoria. E curiosamente, a poesia, que não vende, vai vendendo. Talvez porque a lógica do mercado não a conseguiu dominar e esta deixou-se estar no seu nicho, sossegada, mas sustentável.

Lembrei-me disto porque soube que foi ontem apresentado na FNAC de Coimbra o novo livro de poesia de Luís Quintais, Depois da Música (Edições tinta-da-china). Este é o terceiro livro da colecção de poesia coordenada pelo Pedro Mexia nesta editora, que não tinha propriamente uma «tradição poética». É coisa rara, nestes tempos, ver editoras inaugurarem colecções de poesia e, ainda para mais, com obras de autores contemporâneos, porque, como disse, por mais prazer que possa gerar, é um género pouco marqueteiro. E talvez pelos motivos que aqui expus: porque é preciso conhecê-lo bem, para entendê-lo. Se calhar, a poesia sente-se mais do que se lê. De qualquer modo, eu cá continuarei com os meus velhos hábitos, visitando-a de tempos a tempos e cumprimentando-a sempre que a vir atravessar a rua.

(Publicado a 7 de Novembro de 2013, sem alterações.)

Friday, August 21, 2020

Blogception#1: Um blogue dentro de um blogue

A vida acontece a todos. Até mesmo aos blogues, como foi o caso do Minudências. Há algum tempo que penso em publicar alguns dos posts originalmente publicados lá, que poderão ser lidos aqui. A ideia não é migrá-los para este tasco, mas seleccionar alguns que me agradam particularmente ou porque sim (é sempre um argumento válido). E é isso.

INSPIRAR

Passaram quase dois meses desde a última vez que escrevi para a Preguiça. Não porque me tenha deixado apanhar pela preguiça – o pecado capital e não o bicho -, mas porque fui apanhada numa curva metafórica. Qual Schumacher em Silverstone em 1999, tive de me ausentar por algum tempo para efeitos de convalescença e eis-me de regresso.

O problema de uma ausência assim é que, mesmo que se exercite o corpo, o cansaço acaba por esgotar as ideias. E sem ideias não há post. Sem post não há Minudências. Sem Minudências… oh, o que seria do mundo sem este blogue?

Como é costume, fui consultar o oráculo contemporâneo que é a Internet. Onde se vão buscar as ideias? Escrevi inspiration no Google e ele devolveu-me as seguintes expressões: «inspiration quotes», «inspiration software» e «inspiration cruises». Deveria fazer um cruzeiro, é isso? «Inspiration Cruises & Tours is a Christian travel management company specializing in group travel experiences for Christian ministries and churches since 1981.» Bom, bem sei que esta é uma época muito importante para os Católicos, mas não sei se é um cruzeiro que me safa. E o software? «Inspiration Software, Inc. is an education technology software company based in Portland, Oregon, which provides several visual thinking and learning products for the K–12 education and business markets.» Parece que fazem mind maps e coisas assim. Isso é capaz de ajudar, mas queria uma coisa mais prática.

Segui o caminho para as «quotes». Ele há aqui muitas citações sobre «fazer o impossível». Fico assustada: não quero fazer coisas impossíveis. Só queria ter uma ideia. «Acreditar» e «mudança» são palavras muito usadas. Por momentos pensei que estava no site de um partido em campanha. Acho que ainda não é isto que me vai ajudar. Escrevo «writers» e «inspiration». E aparece uma torrente de sites com estratégias, citações, recursos, tudo para que uma pessoa escreva a rodos. Ora, no tempo do Camões não havia disto. Nem sequer no tempo do Calvino.

Escrevo «what inspire writers?» e saem-me sonhos. Acho que se os sonhos me inspirassem, escreveria algo parecido com Naked Lunch, do William S. Burroughs. Não parece boa fonte. Mas diz-que o Frankenstein (Mary Shelley) e Dr. Jekyll and Mr. Hyde (Robert Louis Stevenson) foram escritos a partir de sonhos. Isso explica algumas coisas. Indago um pouco mais e parece que há muitas formas de conceber uma ideia, como viajar, ouvir música, escutar o que os outros dizem e até meditar. Fico de certa forma aliviada por saber que os autores mais conhecidos tiveram períodos em que as ideias rareavam: F. Scott Fitzgerald padeceu desse mal, mesmo tendo escrito «The Curious Case of Benjamin Button», e até o pai dos Peanuts, Charles M. Schulz (que criou centenas de tiras!). Ainda bem que escrever coisas para viver não é meu mister. Sinto-me melhor.

Lendo atentamente, procurando outros exemplos famosos de writer’s block, percebo que a maior parte dos artigos dá destaque a conselhos sobre como ultrapassar o bloqueio. E são todos muito semelhantes, apelando a que se combata a escassez de ideias com várias tentativas. Apesar das diferenças, Beckett, Twain, Atwood, todos são unânimes: tentar é preciso. Bom, nesse caso, parece que me adiantei ao conselho: voilà, acabei de criar um novo post!

Oh well, parece que estou de volta.
(Publicado a 1 de Abril de 2015, sujeito a ligeiras modificações.)


Tuesday, August 11, 2020

Frase do Dia #61

O seguinte trecho contém spoilers. Quer dizer, mais ou menos: no final, todos morremos, portanto, é um fim expectável. E o que realmente aqui interessa é o seguinte:

«Then, as his planet killed him, it occurred to Kynes that his father and all the other scientists were wrong, that the most persistent principles of the universe were accident and error.

Even the hawks could appreciate these facts.»

O filme do Dennis Villeneuve está quase aí. Mas vale a pena ler primeiro Dune, de Frank Herbert.

Wednesday, July 8, 2020

Tudo aquilo que um livro significa, segundo Bohumil Hrabal

Um dos trechos - não se pode dizer que seja uma frase - de que mais gosto e que ilustra tudo aquilo que um livro é, ainda que hoje em dia a produção de um livro esteja tecnologicamente mais avançada e já não existam lugares como esse onde Hanta trabalhava em Praga:


«Essas férias na Grécia abalaram-me; eu, que me projectava na Grécia antiga apenas através da leitura de Gerder e Hegel e que me tinha iniciado na visão dionísica do mundo em Friedrich Nietzsche [...]. Agora, estão todos a trabalhar, bronzeados [...], não estão nem um pouco emocionados pelo facto de nas férias irem à Hélada, sem nada saberem sobre Aristóteles, Platão e Goethe, braço prolongado da Grécia antiga, trabalham calmamente e continuam a arrancar o interior dos livros e das suas capas, arremessando as páginas apavoradas e eriçadas de medo sobre o tapete rolante, com indiferença e calma, sem imaginarem tudo aquilo que um livro significa; afinal, alguém teve que escrever o livro, alguém teve que ilustrá-lo, alguém teve que compô-lo, alguém teve que fazer a revisão, alguém teve que compô-lo de novo e de novo rever antes de o compor definitivamente, alguém teve que pô-lo na impressão e alguém teve que lê-lo pela última vez antes de voltar a pô-lo, folha a folha, numa máquina que o encadernava, alguém teve que pegar nos livros e atá-los num pacote, e alguém teve que escrever a conta por todo o trabalho que o livro deu, e alguém teve que decidir que o livro não devia ser lido, alguém teve que censurá-lo e dar ordem de o deitarem no lixo, alguém teve que pôr os livros no armazém, alguém teve que trazer os pacotes de livros até aqui, onde os operários e as operárias com luvas vermelhas, azuis, amarelas e alaranjadas arrancam as entranhas dos livros, deitando-as sobre o tapete rolante que, silenciosamente, mas com movimentos certeiros, levava as páginas eriçadas para debaixo da prensa gigantesca que as esmaga em pacotes, e os pacotes vão para as fábricas de papel que os transformam em papel branco, inocente, imaculado, sem a mancha das letras, para que novos livros possam ser impressos...»

Algures em Uma Solidão Demasiado Ruidosa

Monday, June 29, 2020

Frase do Dia #60


Das dificuldades da poesia, segundo Bohumil Hrabal, em Uma Solidão Demasiado Ruidosa:

«[...] talvez fosse o mesmo homem que, há um ano, me atacou de noite perto do matadouro de Holesovice com uma faca finlandesa: empurrou-me para um canto, tirou um papel do bolso e leu-me um poema sobre uma bela paisagem perto de Rícany e depois pediu desculpa, dizendo que, por enquanto, não encontrava outra maneira de obrigar as pessoas a ouvir os seus versos.»

Times are tough, gente. Times are tough

Thursday, June 25, 2020

Frase do Dia #59

Revisitando um velho livro de Italo Calvino, Sob o Sol Jaguar, no conto «O Rei à escuta», que descreve um rei que tem de se manter 24 horas sob 24 horas no trono, de modo a que não lho usurpem, encontra-se este trecho, que descreve o momento em que a cidade começa a arder e o rei tem, finalmente, oportunidade de escapar à sua prisão solitária:

«A cidade explodiu em chamas e em gritos. A noite explodiu, tombada dentro de si mesma. Trevas e silêncio precipitam-se dentro de si e deitam fora os seus restos de fogo e de berros. A cidade encarquilha-se como uma folha a arder. Corremos, sem coroa, sem ceptro, ninguém pode perceber que somos o rei. Não há noite mais escura que uma noite de incêndios. Não há homem mais solitário do que aquele que corre no meio de uma multidão aos berros.»

Wednesday, June 24, 2020

Frase do Dia #58

Quando estava em Macau, o jornal onde trabalhava publicava diariamente uma citação atribuída a Confúcio. A primeira coisa de que me apercebi é que Confúcio era um mestre em constatar aquilo que eu entendia como óbvio. Mais tarde, lendo um dos ensaios de Eliot Weinberger em The Ghost of Birds, encontrei isto:

«Confucianism taught that when the government is bad, one should head for the hills. (Taoism taught that, regardless of government, one should head for the hills.)»

Se os montes equivalerem ao campo, acho que estou safa. Pelo menos há tomate, alface, batata e vinho que cheguem até ao próximo inverno. 

Tuesday, September 1, 2015

Lista #10: Livros que se transportam para férias [ou como ressuscitar um blogue sem fazer respiração boca a boca]

Sem olhar para datas, para evitar receios, depressões e hesitações, e porque quem vai para o mar avia-se em terra, antecipei as férias escolhendo meia dúzia de livros para levar comigo. Na verdade são mais de seis, e não peçam grande critério. São livros que já começaram a ser lidos e que ficaram a meio e, portanto, têm de ser recomeçados do início, outros foram escolhidos porque a curiosidade deve ser satisfeita, e uns porque simplesmente foram achados perdidos no meio de outros e não merecem ser discriminados.

O Labirinto da Saudade Psicanálise Mítica do Destino Português, Eduardo Lourenço: está na estante desde o segundo ou terceiro ano da faculdade e foi lido, pela última vez, corria o verão de 2006. Para aprender algo de interessante, lá vai ele, novamente, nove anos depois (não deprimas, não deprimas).

a estrada curva, jorge vaz nande: são pequenos contos e, honestamente, já nem sei bem como chegou a mim. Também deve ter uma qualquer relação com os meus tempos de faculdade, porque tanto quanto sei, foi colaborador d'A Cabra. É pequenino e estava perdido no meio de uma estante em casa dos meus pais, mas não é por isso que é menos do que os outros.

Anthology of Black Humour, André Breton: primeiro veio a Nadja. Como L'Amour Fou não se achava em livraria alguma, encontrei-me um dia na Almedina Saldanha com este e, passados cinco anos, depois de iniciada a leitura, achei que estava na altura de avançarmos na nossa relação.

Isto Não é Um Conto, AA.VV.: mais recente, apesar do tema difícil, tem uma história pessoal/laboral a ele associada e é um dos poucos vestígios positivos desse período mais complicado da minha vida.

Tabacaria, Álvaro de Campos: é uma forma de me convencer que até leio poesia e é um clássico.

O Desaparecido (aka Amerika na versão anglo-saxónica), Franz Kafka: porque há coisas que têm início e precisam de ser terminadas para que nunca mais nos voltem a assombrar. E nada disto tem que ver com o pobre Kafka, que nunca chegou a terminar o livro, nem nunca viu a última vontade respeitada (como este livro o testemunha).

Ursamaior, Mário Cláudio: espero que não seja o único título desta trilogia com nome de constelações que leio, mas há que começar por algum lado.

Ficções de Humor, AA.VV.: faltava-me este de entre todos os números «especiais» da revista. E pronto, porque dá sempre jeito um livro de contos, principalmente se tiver piada.

Fora isto, ainda devo andar a ler La famosa invasione degli orsi in Sicilia, do Dino Buzzati, livrinho que já merecia uma tradução para o português. Assim naquela.

Thursday, October 9, 2014

Monday, September 1, 2014

Sem número, número 23

Porque é que os dias, mesmo que se iniciem com Monty Python, terminam inevitavelmente com Bohumil Hrabal?

Friday, May 2, 2014

Livros extraordinários #1


Directamente da série «Capas espectaculares, brutais e cenas assim», a capa original de O Vampiro de Curitiba, de Dalton Trevisan. Corresponde perfeitamente ao conteúdo, ao «pintas» que é o Nelsinho.

Thursday, January 3, 2013

Lista #9: Livros lidos desde o início até metade do ano em que nos encontrávamos antes [Take 2]

O ano passou já, mas posso continuar a listar os livrinhos que fui lendo ao longo do ano passado ao ritmo que bem me apetecer.

O Crocodilo, Fiódor Dostoiévski: O Crocodilo é um livrinho pequenininho que relata a história de um senhor que, um dia, em Moscovo, cai na boca de um crocodilo - ninguém adivinharia - e por lá fica, mandando uns bitaites sobre o mundo e coisas assim. É hilariante. Nunca pensei que o o amigo Fiódor fosse capaz de tanto humor.

Alien, O Oitavo Passageiro, Alan Dean Forster: como tenho uma história pessoal conflituosa com os filmes - que não vi na totalidade, ainda - achei que ler o filme era capaz de ser uma boa ideia. E além disso, o livro por lá andava perdido numa estante, achei melhor ver o que tinha dentro.

Vinte e Seis e Mais Uma, Máximo Gorki: são duas histórias e não são feitas para rir. É muito triste, na verdade. Mas o homem escrevia que era uma categoria, ó sim.

No Rasto do Corsário Coja Acém, Fernão Mendes Pinto: acho que em 2008, que foi quando comprei o livro, comecei logo a lê-lo [aliás, lembro-me de estar na sala de espera do gabinete do dentista a tentar concentrar-me na leitura apesar do barulho daquelas coisas horrendas que nos metem na boca]. Mas só este ano voltei a lê-lo desde o início até ao fim. Desgraçado Fernão, que tanta desventura sofreu pela Ásia. [Hum... isto recorda-me alguém...]

O Pátio Maldito, Ivo Andríc: depois de lê-lo, coisa que me agradou bastante, apesar de ter sido lido nas 5/6 horas em que estive à espera de ser atendida no Centro de Emprego, achei curioso o modo como o senhor parece abordar/recriar personagens que são moldadas pelos espaços/lugares onde estão e/ou vivem. Mas deve ser natural, dada a nacionalidade do senhor e o período histórico em que viveu. E sim, gosto muito.

Monday, September 17, 2012

Lista #9: Livros lidos desde o início até à metade do ano em que nos encontramos [Take 1]

Com interregnos literários pelo meio, pois, quando o tempo abunda, com frequência apetece apenas inserir a cabeça num buraco, qual avestruz. Claro que é um desejo arriscado: nunca se sabe quando o buraco poderá ser um ninho de vespas gigante. -.-

As Teorias Selvagens, Pola Oloixarac: já aqui falei um pouco do livro e acho que se continuar a dissertar sobre os jovens argentinos inteligentes, mas feios, que vivem neste livro, talvez acabe por matar o interesse alheio. De qualquer modo, gostei do retrato particular deste moço e moça argentinos, de Buenos Aires, que, apesar de tudo, devem configurar alguns dos indivíduos que devem compor o tecido alternativo da capital argentina.

Contra o Fanatismo, Amos Oz: este andava escondido algures numa filinha de livros há alguns anos. É livro de pequenas dimensões, ofertado na compra de um jornal Público de um dia que já esquecido na minha memória. Parece que é uma breve compilação de uns textinhos redigidos pelo senhor autor proferidos em conferências e coisas que tais. Mas é bom de se ler. Mais não seja para se poder conhecer a perspectiva de um israelita lúcido em relação ao conflito israelo-árabe.

Wunderkind, Carson McCullers: quando se gosta de determinados autores, creio ser natural buscarmos todos os títulos publicados com o seu nome. Esta prenda oferecida no ano passado, pelo final de Maio, só se leu no início deste ano, mas valeu a pena. Como já aqui apontei algures no blogue, tem até umas coisas bonitas escritas, que valem a pena ler. É uma compilação de uns poucos - cinco, se não estou em erro - contos da autora, publicados recentemente pela Penguin numa colecção que reúne outros contos ou textos breves de grandes autores.

À Volta da Lua, Jules Verne: é um daqueles livritos velhinhos - quase a cair, na verdade, não sei se da idade, se dos próprios materiais de confecção, se dos dois - da Europa-América, no qual peguei uma vez ou duas desde que o ganhei em qualquer coisa na escola (ainda no tempo do básico). Na altura, pequena, iniciei a leitura desta sequela de Da Terra à Lua e assustei-me e desisti da leitura quando vi umas quantas equações matemáticas para mim equivalentes a russo. Este ano, ao limpar estantes e prateleiras, voltei a cruzar-me com ele e achei que devia ler o livro, mais não fosse para me maravilhar com as previsões do autor. E as equações não me morderam.

Ficções de Guerra, vários:  à distância, é sempre difícil lembrar todos os contos e todos os autores que lemos. Mas houve um em particular cuja leitura apreciei bastante. Uma breve pesquisa via Google permite-me saber o nome do autor português que assina o conto de que mais gostei: José Martins Garcia. Este desconhecido contribui com «Performance», uma história breve, mas plena de humor de «um homem que, chegado a um aquartelamento na selva, não tem cama onde dormir». Apesar de apenas possuir uma vaga ideia do que foi a Guerra Colonial, este conto contraria tudo o que se poderia esperar de uma narrativa sobre  o conflito. Vale tão a pena. Tenho de encontrar o livro que inclui este conto, Katafaraum é uma Nação. Tenho mesmo.

[E foi isto que aconteceu até Abril. Pede-se desculpa pelo atraso, mas sou pessoa com uma vida - quer dizer, às vezes - para viver.]

Wednesday, May 2, 2012

Frase do Dia #30

O Crocodilo, de Fiódor Dostoievsky, é um manancial de trechos fabulosos (e absurdos, também). Começo aqui por citar um dos diálogos que considero mais interessantes:

[Contextualização: um homem, Ivan Matveitch, vai ver uma exposição onde figura um crocodilo e acaba na barriga do animal. Um amigo do homem na barriga do crocodilo procura soluções para o ajudar e pede conselho a um funcionário seu colega mais velho, Timofey Semyonitch.]

«- Imagine - afirmou ele -, sempre pensei que isto lhe acabaria por acontecer, certamente.
- Porquê, Timofey Semyonitch? É um incidente deveras invulgar...
- Admito-o. Mas toda a carreira do Ivan Matveitch no emprego estava a caminhar para este fim. Ele era deveras inconsistente e presunçoso. Estava sempre a falar do progresso e de ideias de todos os tipos, e é isto que o progresso traz às pessoas!
- Mas foi um incidente invulgar e não pode servir de regra aplicável a todos os progressistas.
- Sim, com efeito, pode. Garanto-lhe que é o resultado de instrução a mais. Pois a instrução a mais leva as pessoas a meterem o nariz onde não são chamadas.
[...]
- Ivan Matveitch anseia pelos seus conselhos, anseia pela sua orientação. Ele suplica por eles, com lágrimas nos olhos, por assim dizer.
- Com lágrimas nos olhos, por assim dizer! Hum! Isso são lágrimas de crocodilo e não se pode confiar muito nelas.»

Tuesday, May 1, 2012

Frase do Dia #29

A propósito dos livros velhos (re)encontrados no escritório e dos russos, eis este trecho retirado do mini-livro Contra o Fanatismo de Amos Oz, que foi oferecido, num dia já distante, com o jornal Público:

«O bairro estava cheio de tolstoianos - pessoas que acreditavam na ideologia de Tolstoi -, alguns até tinham o mesmo aspecto e vestiam-se como Tolstoi. Deixavam crescer a mesma barba branca e usavam uma espécie de toga russa cingida por uma corda. Pareciam mais tolstoianos do que o próprio Tolstoi. Quando, pela primeira vez, vi uma fotografia de Tolstoi na contracapa de um dos seus romances, estava convencido de que era alguém do nosso bairro. [...] Deste modo, eram tolstoianos, mas muitos deles tinham saído directamente de um romance de Dostoievski porque tinham uma mente e uma alma muito torturadas, cheias de contradições, de raiva e conflito. Diria até mais: aqueles dostoievskianos tolstoianos pertenciam, na realidade, a uma história de Tchekov. O espírito real do bairro não era nem Tolstoi nem Dostoievski: era Tchekov. A nostalgia de lugares longínquos. Em algum lugar para lá do horizonte estava a amada cidade de Moscovo, Moscovo...»