Folheando livros lidos há quase uma década, no tempo em que o Umberto ainda era vivo, deparo-me com esta tirada do Eco:
Como sempre, Umberto Eco (em A Passo de Caranguejo) a definir de forma simples e certeira as coisas que importam.
Folheando livros lidos há quase uma década, no tempo em que o Umberto ainda era vivo, deparo-me com esta tirada do Eco:
Como sempre, Umberto Eco (em A Passo de Caranguejo) a definir de forma simples e certeira as coisas que importam.
Às vezes, a pessoa cruza-se com um gajo que percebe das merdas. Outras, descobrimos miúdas que sabem como é isto de ser pessoa:
Excerto de «Vampires versus Werewolves», em Poukahangatus, de Tayi Tibble.
O mundo é um lugar muito grande, cheio de diferenças. Mas, estejamos cá em cima ou lá em baixo, em Portugal ou na Nova Zelândia, o que sentimos é mais parecido do que aquilo que pensamos.
Agora que o Outono se instalou em pleno, dei por mim a pensar naquele texto produzido para a minha estreia na Preguiça-Mãe de Leiria e publicado no tasco Minudências algures na segunda quinzena de Setembro de 2015.
RECOMEÇAR
Há quem diga que os começos são difíceis. Abrir um novo caminho, dar início a uma nova tarefa. Eu ouço e penso nos recomeços. Os inícios têm a vantagem se colocar à nossa frente, sem mácula, limpos, contendo em si toda a esperança, toda a energia e todo o optimismo do que é novo.
Os recomeços são mais complicados. Repousam sobre obras inacabadas, a maior parte das vezes estão cheios de falhas, gralhas, erguem-se sobre erros do passado, obrigando a um esforço extra, frequentemente executado de forma contrariada.
E ainda assim, prefiro-os. Há nos recomeços a possibilidade de aprender com o que já está feito, mesmo que cheio de imperfeições, pejado de falhas. Não quero depositar toda a minha fé nos começos limpos, perfeitos. Desejo um recomeço que me obrigue a ser melhor, a evoluir. A aperfeiçoar-me, não obstante o que me antecedeu. Há uma certa beleza inerente aos Prisioneiros inacabados de Michelangelo Buonarroti que o David, do topo do seu pedestal, no seu esplendor marmóreo simplesmente não contém.
O Outono é para mim, então, a época dos perfeitos recomeços: não é o Ano Novo, o civil, ou o chinês, ainda que o ano se aproxime do seu fim e pouco falte para o seu término. No entanto, o Outono representa o final do Verão, que constitui para muitos o culminar do calendário.
A excitação do Verão desaparece, as horas de luz diminuem e as árvores, esses seres sábios (que Tolkien bem soube reconhecer), preparam-se para o tempo que há-de vir e recolhem-se à sua tranquilidade. É tempo de reflectir sobre o que fomos e fizemos nas duas últimas estações. Fomos bons para o(s) próximo(s)? Rimos o suficiente? Teremos sido felizes na conta certa?
Entro no Outono de férias, sem o rodopio do calor do Verão e a agitação das hormonas. Chego ao Outono com a tranquilidade das temperaturas frescas e o vento que agita os cabelos e as folhas que cobrem as calçadas.
Chego às férias ao mesmo tempo que a rentrée literária invade as livrarias. Folheio catálogos, leio listas, mas não há muito que me entusiasme. Noto um conjunto de títulos que assinalam o fim da Segunda Guerra Mundial e evocam os horrores do Holocausto. Não sei se precisamos de mais livros sobre a miséria e a crueldade humana. Num momento como este, talvez fosse mais importante celebrar a bondade dos homens. Não que ela abunde. Mas por isso mesmo: porque deve ser valorizada e apreciada e não nos devemos deixar normalizar pela banalidade do mal.
Há um livro, Uma Cana de Pesca para o Meu Avô, de Gao Xingjian, o primeiro Nobel chinês (mas que não é tido como tal por se encontrar no exílio há muitos anos), que embora não sendo um livro extraordinário, tratando-se de uma colecção de breves trechos, tem passagens belas. Numa delas, de que me recordo frequentemente, em que o avô dialoga com o neto (se a memória não me atraiçoa) diz-se que os homens são maus e que o avô prefere os tigres aos homens maus. Ainda assim, ele prefere debruçar-se sobre a «bondade do coração humano». E talvez também nós o devêssemos fazer. Não só agora, mas para sempre.
(Com algumas alterações.)
Do amor, segundo Amerigo Ortea, em O Dia de um Escrutinador, por Italo Calvino:
O seguinte trecho contém spoilers. Quer dizer, mais ou menos: no final, todos morremos, portanto, é um fim expectável. E o que realmente aqui interessa é o seguinte:
«Then, as his planet killed him, it occurred to Kynes that his father and all the other scientists were wrong, that the most persistent principles of the universe were accident and error.
Even the hawks could appreciate these facts.»
O filme do Dennis Villeneuve está quase aí. Mas vale a pena ler primeiro Dune, de Frank Herbert.