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Thursday, November 1, 2012

Sem número, número 9

Os pés iam deslizando pelo tatami, cruzando os corredores iluminados pela tranquilidade dos raios de sol que as paredes de papel deixavam atravessar. Um shogun sentado, imóvel, de olhar vazio, ocupava o centro da sala, enquanto uma gueixa servia chá. A cena parecia preparada para receber alguém. Um estrangeiro, talvez. Ela olhava as cores e imaginava o cenário com vida, onde pessoas feitas de carne e osso se movimentavam vagarosamente. Caminhava devagar, pisando o tatami suavemente. Sentia a lycra dos collants roçar o chão e o frio que restava do Inverno já quase a chegar ao fim. Um ligeiro arrepio subiu ao pescoço: era uma sensação agradável.

Era a segunda vez que caminhava descalça, naquela manhã. Antes do castelo, visitara um templo, onde, como é habitual, fora obrigada a retirar os sapatos. Por breves momentos assistira a uma cerimónia cujo fim desconhecia, mas onde o que suponha ser um monge ou padre retirara uma série de objectos da manga, empunhando-os de seguida. Um leque, um par de óculos, um pedaço de papel, a partir do qual lera (o que lhe parecia serem) algumas frases. Sentou-se no chão. Sentiu-se livre, como se, momentaneamente, o espírito tivesse libertado o corpo.

Tranquila, assistia aos gestos lentos do cerimonial. O mestre – chamemos-lhe assim – ergueu o leque. Depois, retirou da funda manga um pequeno rolo de papel, a partir do qual entoava algumas palavras na sua língua materna. Pelo desconhecimento do japonês, deixou-se embalar pelos sons que o ar trazia suspensos. Cheirava a incenso e, ao fundo, Buda vigiava os presentes. Uma mulher segurava as portas deslizantes e, delicadamente, fez-lhe um sinal, pedindo que saísse. Levantou-se, devagar, e saiu. Partia pacificada, ainda que sem perceber o que lhe acontecera.

À tarde, no castelo, quando se descalçou, sentiu que a luz filtrada pelas paredes de papel a atingia. Tudo parecia diferente: sentia o chão, mas era como se flutuasse. Deixava os pés deslizarem no tatami e descobria o seu toque, sentia a textura. Percorria as diversas salas, onde se erguiam ilustrações naturalistas, decorando cada reflexo de luz e memorizando cada sensação nova.

Quando finalmente saiu para a rua, sentou-se nos degraus de madeira, calçando os sapatos. Inesperadamente, sentiu, pela primeira vez, o pé no sapato. Lembrou-se da sua infância, da história de Cinderela. Sorriu. Encontrara o seu - o sapato - e também se sentia feliz. Ou, pelo menos, assim lhe pareceu.

Recordar-se-á, para sempre, dos primeiros passos na gravilha depois de ter atado os ténis. Sentiu a terra como parte de si; sentia cada pedra que pisava. Ouviu algures o som do koto, o instrumento de cordas japonês. Estava em lado nenhum. O corpo absorvia as sensações e pacificamente acolhia-as no seu interior transformando-as num sentimento de profunda tranquilidade. Cada passo era sossegado, ponderado. Cada passo uma viagem. E nessa viagem física, nessa breve caminhada, encetou uma viagem interior que a pacificou. E talvez tenha, até, sentido felicidade.

[Nesse dia erguia-se um sol primaveril, como este outonal, que não aquece os corpos, mas aconchega os corações.]


Ó, a cara de felicidade.


29 de Outubro de 2008 - 31 de Outubro de 2012

Tuesday, October 2, 2012

Sem número, número 6 (parte I)

[A mia ilustríssima Sorella - que tanto respeito e admiro que até escrevo o nosso grau de parentesco com letra maiúscula - disse-me, há dias, que do que ela gostava por estas bandas eram as pequenas estórias parvas que «contava». Atendendo ao seu pedido, aqui vai outra. Das bandas do Oriente, pois claro, porque por lá, meia volta, aconteciam coisas «diferentes». Ah, e já agora, porque quem manda aqui sou eu, posso contar as estórias enquadrando-as como a minha mãe. Ou seja, mencionando pormenores irrelevantes. E dito isto, cá vou eu.]

Como as duas ou três pessoas que lêem este blogue já devem saber - até porque, certamente, são membros da minha família próxima - fui ao Japão há uns anos. Era Primavera e ao nascer do dia, os corvos pousavam nas cerejeiras e podíamos escutá-los no hostel onde estava e... e isto não tem nada a ver com o que quero contar. Era só para acrescentar uns pormenores irrelevantes como às vezes a Mãe faz. Busted!


No tal hostel onde fiquei havia muitos turistas ocidentais e, metendo conversa ao pequeno-almoço uns com os outros na sala comum, fomos saindo em grupos. Sai com um rapaz belga, da Flandres - todos parecem ser de lá - e fomos a Ozakajó, o castelo de Osaka, para depois apanharmos o comboio para Nara.

O moço belga e eu pedimos indicações a um tipo que estava no hostel e que já estava no Japão há uns meses. Ele lá nos disse que tínhamos de passar do metro para a linha do comboio e assinalou num esquema dos meios de transporte cheio de linhas e cores diferentes o percurso que tínhamos de fazer. Hoje já não conseguiria orientar-me sozinha com aquele esquema, porque tudo parecia igual. Caminhos-de-ferro estatais, caminhos-de-ferro privados, loop-line, metro, tudo era o mesmo: linhas cinzentas de gradação diferente num pedaço de papel com uns nomes em alfabeto latino. Aliás, ainda hoje guardo esse esquema e, de cada vez que olho para ele, penso em como terei conseguido sair dali para o aeroporto seguindo as orientações da folha.

A aventura começou logo na primeira estação de metro. Se a memória ainda me é fiel, tínhamos de comprar os bilhetes de metro sabendo para que estação ou grupo de estações nos dirigíamos. Ficámos a olhar durante algum tempo para o esquema na parede da estação, em frente da parede com as máquinas de bilhetes, até que, por não nos entendermos bem nesse ponto, o rapaz apontou para o botão que dizia «Se necessitar de informações carregue aqui» (ou uma coisa do género) e disse que o melhor era falar com alguém dali que nos explicasse como era aquilo. Ele carregou no botão e esticámos as orelhas para escutar bem a voz. E eis que, subitamente, uma cabeça surge da parede, para grande espanto nosso. Uma cabeça a sair da parede, do meio das máquinas encastradas. Saltámos nos nossos lugares, tal o susto, e tenho a certeza que ficámos de olhos bem arregalados a olhar para aquela cabeça que, no mesmo segundo que sai cá para fora, arranca-nos as moedas das mãos, mete na máquina e recolhe-se à parede. Foi tudo muito rápido, mas ainda deu para espreitarmos e percebermos que o interior da parede comportava uma pequena salinha onde o homem passaria as suas horas (ou dias) de trabalho. Agora, sempre que no metro, em Lisboa, os meus olhos pousam naqueles botões próximos das saídas em que deve estar escrito algo como «Para informações, ou falar com um funcionário, carregue aqui», eu penso na cabeça que sai da parede.

[To be continued...]

Wednesday, August 22, 2012

Sem número, número 3



Ontem, ao conduzir numa estrada que conheço de cor, lembrei-me de estar num bar em Osaka, algures no meio de Namba, a beber uma cerveja (das completas, não uma meia-cerveja) com um rapaz belga a morar em Pequim e um neo-zelandês que partira a perna a esquiar algures em Hokkaidó. Estavamos sentados à janela e passou um Toyota MR2. Na rua havia umas quantas moças vestidas de meninas de colégio em cartão em tamanho natural. E eu pensei para mim que aquilo era mesmo muito japonês.  

Monday, March 12, 2012

11-3-11

Cherry Blossom Girl foi o nick que adoptei ao criar este blogue. Surgiu pouco tempo depois de ter visitado o Japão, em Abril de 2008, no que considerei um golpe de sorte. Cheguei ao País do Sol Nascente em plena Primavera e sakuras era coisa que por lá não faltava. Fiz a viagem sozinha - o avião transportava mais passageiros, claro, mas acho que percebem o que quero dizer - e, embora não tenha visitado as cidades onde estive sozinha, a maior parte das fotos foram tiradas apenas por mim. Inclusivamente e principalmente aquela que figura no meu perfil do Blogger.

Este foi sem dúvida um dos acontecimentos da minha vida. E uso o termo «acontecimento» no mesmo sentido que é utilizado no domínio do Jornalismo - ou pelo menos nos livros que nos mandam ler quando estudamos Jornalismo. Um acontecimento é algo digno de ser noticiado. É algo importante, raro, que acontece fora da rotina. Foi esse o caso da viagem ao Japão. Recordo-me - embora o sentimento seja hoje mais esbatido, um pouco erodido pela passagem do tempo - que me senti verdadeira e profundamente feliz enquanto lá estive: sentia paz, tranquilidade, alegria e tinha a clara noção de que estava a concretizar um dos tópicos da minha lista «Coisas a fazer antes de morrer» com apenas 22 anos.

O Japão é, por isso, um lugar muito especial para mim. Ainda que a minha passagem por essas terras tenha sido breve e poucos lugares tenha visitado, fui muito bem recebida e, tal condicionamento pavloviano, associo o Japão a felicidade (um sentimento ausente de mim durante tantos anos e, como tal, hoje muito valorizado).

Há um ano, o Japão também registou «um acontecimento». Ou pior: três eventos numa só catástrofe. Um sismo de elevada(íssima) amplitude, um tsunami (gigantesco) e um acidente nuclear. A realidade ultrapassou a ficção. Recordo-me do choque das imagens das enormes ondas varrendo vilas, cidades. Casas arrastadas, barcos galgando estradas inundadas. Vi também, pela primeira vez, um fenómeno assustador: fendas percorrendo passeios e jardins, expandindo-se e fechando-se, manifestando à superfície as tensões que emergiam das profundezas da terra. Antes de ter acontecido era inimaginável. Mas aconteceu e tornou-se um facto. 

Durante um mês - dois, talvez? - assistimos diariamente, no conforto das nossas casas, bem assentes num chão menos propício a terramotos, à agonia dos sobreviventes, à dor da perda, à fome, ao seu sofrimento. E, como se não fosse suficiente sobreviver a uma catástrofe natural de tamanhas dimensões, havia ainda que tentar sobreviver à catástrofe «artificial», à radioactividade. Falou-se muito na central nuclear de Fukushima - que até então, quantos fora do Japão saberiam da sua existência? - do facto de a central não ter resistido às forças das águas, ao sismo. Falou-se no grupo de homens e mulheres que permaneceu no interior da central, tentando impedir o pior, ou, pelo menos, tentando minimizar os danos. Para o mundo, o Japão ficou associado a tragédia.

Passou um ano. Fez hoje um ano que o sismo atingiu o Japão e desencadeou o tsunami, o «acidente» na central nuclear, milhares de mortos, centenas de pessoas afectadas pela radioactividade, um pontapé na economia japonesa, acendeu um debate sobre energias renováveis, entre muitos outros efeitos impossíveis de contemplar em conjunto. Passou um ano. O tempo erodiu o espaço dado pelos meios de comunicação social à catástrofe do Japão. Afinal, já passou um ano e o Japão é distante - geograficamente e culturalmente. Passou um ano. Quantos se recordam ainda do dia exacto em que o tsunami varreu o País do Sol Nascente? Passou um ano. Quantos, fora do Japão, terão lembrado, nos meses que se seguiram ao sismo até hoje, o que se passou? Passou um ano. Independentemente de jornais e canais de televisão, estou certa de que na memória dos sobreviventes o tempo que passou não erodiu a memória do que aconteceu no dia 11 do 3 do 11.