Revisitando um velho livro de Italo Calvino, Sob o Sol Jaguar, no conto «O Rei à escuta», que descreve um rei que tem de se manter 24 horas sob 24 horas no trono, de modo a que não lho usurpem, encontra-se este trecho, que descreve o momento em que a cidade começa a arder e o rei tem, finalmente, oportunidade de escapar à sua prisão solitária:
Thursday, June 25, 2020
Frase do Dia #59
Wednesday, June 24, 2020
Frase do Dia #58
Quando estava em Macau, o jornal onde trabalhava publicava diariamente uma citação atribuída a Confúcio. A primeira coisa de que me apercebi é que Confúcio era um mestre em constatar aquilo que eu entendia como óbvio. Mais tarde, lendo um dos ensaios de Eliot Weinberger em The Ghost of Birds, encontrei isto:
«Confucianism taught that when the government is bad, one should head for the hills. (Taoism taught that, regardless of government, one should head for the hills.)»
Se os montes equivalerem ao campo, acho que estou safa. Pelo menos há tomate, alface, batata e vinho que cheguem até ao próximo inverno.
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Tuesday, June 23, 2020
Frase do Dia #57
Sobre o peso de uma cabeça e seu respetivo funcionamento, segundo María Gainza, no seu muy delicado O Nervo Ótico:
«Que gozo. Ser um espírito inquieto, sentir que o meu corpo se desmaterializa, sobretudo o meu cérebro de chumbo: libertar-me dos arrebatamentos que são a minha prisão, do magma que brota vinte e quatro horas do meu coração, transformar-me em ondas intermitentes de energia, lampejos caprichosos do Além... Enfim, parar de pensar, isso seria a glória.»
(E um obrigada à Sofia, que nunca se esquece de mim e vai partilhando comigo algumas das coisas bonitas que faz.)
Monday, June 22, 2020
Sem número, número 35
Como descrever aquilo que nos aconteceu e vem a acontecer desde há três meses? O post pecará por tardio: o que era estranho em Março, já se tornou comum em Junho, mas sinto ainda ocasionalmente aquela sensação de que isto não é normal. E, na verdade, não pode sequer sê-lo tão em breve. Os números corroboram esta ideia.
O facto é que, se, para alguns, isto é o desejado regresso à "normalidade", quanto a mim, só agora começo a sentir-me desconfortável na nova realidade. Tive a sorte (será?) de ir de férias antes do início da quarentena oficial e regressar da Catalunha menos de 24 horas antes das fronteiras encerrarem. Cheguei a casa numa sexta-feira e segunda-feira comecei de a trabalhar a partir de casa. Estava, apesar de tudo - apesar do receio de contágio, da impossibilidade de visitar a família - descansada, e os quinze dias que se seguiram foram o meu período mais produtivo.
À medida que o tempo tem passado, é-me cada vez mais difícil agarrar à rotina, à produtividade, a cumprir as listas de tarefas. O que é isto? Como voltar a ser a mesma pessoa quando tudo à nossa volta está mudado, quando não somos os mesmos, ainda que a nossa natureza permaneça imutável? Não sejamos ingénuos: sim, houve gestos de solidariedade, houve-os, felizmente. Mas não se deixem enganar: o lobo não se transformou em cordeiro e a serpente em andorinha. A nossa natureza permanece a mesma, apenas mais visível. As bestas apenas ficaram mais bestas.
Thursday, August 30, 2018
Cenas da vida do outro lado #1
Do mundo. Literalmente.
MR: "Tia Sara, porque moras sozinha nessa casinha?"
Tia Sara: "Porque a Tia Sara não tem namorado, Maria."
MR: "Mas porquê?"
Tia Sara: "Porque não consigo arranjar um, Maria."
MR: "Precisas de um menino!"
Tia Sara: "Sim, mas não há, Maria."
MR: "Mas tens de tentar! Tenho a certeza que há um menino que gosta de ti! Tens de usar roupas bonitas!"
(A MR tem cinco anos. E é isso.)
MR: "Tia Sara, porque moras sozinha nessa casinha?"
Tia Sara: "Porque a Tia Sara não tem namorado, Maria."
MR: "Mas porquê?"
Tia Sara: "Porque não consigo arranjar um, Maria."
MR: "Precisas de um menino!"
Tia Sara: "Sim, mas não há, Maria."
MR: "Mas tens de tentar! Tenho a certeza que há um menino que gosta de ti! Tens de usar roupas bonitas!"
(A MR tem cinco anos. E é isso.)
A Tia Sara obedece à MR, as usual.
Wednesday, August 29, 2018
Sem número, número 34
Procurei um táxi que me levasse até ao hotel, no centro da cidade. Meti conversa com o condutor, paquistanês. Há quanto tempo na Nova Zelândia? Que lhe parece? O cricket aqui não é tão bom, pois não? Sei muito pouco sobre o jogo, mas estava a par da derrota dos Black Caps frente ao Paquistão algumas semanas antes.
O caminho que separa o aeroporto do centro é longo. Os subúrbios desenrolavam-se à nossa volta, sem fim à vista. Christchurch é tão diferente de Wellington. A dimensão dos subúrbios é, em parte, consequência do terramoto de 2011. Mas eu não o sabia ainda.
Cheguei ao hotel, numa avenida que me pareceu bastante comum. Ruído de vozes num pub, um bar mais à frente e um restaurante do outro lado da estrada. Subi, troquei a camisa por uma t-shirt, escovei os dentes e regressei à rua.
De acordo com o mapa, a Cardboard Cathedral (ou Catedral Temporária) situava-se a uns dez minutos de distância, em linha recta. Fiz-me ao caminho para rapidamente perceber que estava a andar na direcção errada: estava em cima de uma ponte que surgia do lado oposto ao que devia seguir. Passei por um sem-abrigo embrulhado num saco-cama. Um transeunte deteve-se e perguntou-lhe se estava bem. A cabeça do homem emergiu de baixo do cobertor para acenar afirmativamente. O outro deixou-lhe uma moeda e desejou uma boa noite.
Finalmente no sentido correcto, em poucos metros deixei de ouvir as vozes do pub e a música do bar. Os edifícios tornavam-se mais raros, intervalados por espaços vazios que pareciam baldios.
Acompanhada pelo som dos meus passos e pelos beeps dos semáforos que mudavam de cor para peões inexistentes, cheguei a um cruzamento. Ouvi passos na gravilha. Detive-me. Um rapaz contornava uma casa cercada por uma barreira de metal que alertava para o risco de ruir.
Atravessei a estrada. As janelas de uma casa baixa derramavam luz vermelha sobre o passeio. Ouvi mariachis. A porta estava fechada, mas do lado de fora vislumbrei uma fila de caveiras. Era apenas um restaurante mexicano que fechava. Antes das dez da noite.
Ao fundo da avenida, do lado oposto, surgia a catedral. Pouco parece ter de temporário. Tem o aspecto de uma casa alpina decorada com vitrais. Ou assim me pareceu.
Um portão separa a rua da entrada da catedral. Dois alemães aproximaram-se do gradeamento. Eu avancei e um homem com o dobro do meu tamanho, maori, aproximou-se da porta, que abriu. Apontando para a minha irmã, digo-lhe que tenho permissão para entrar. Ele escuta-me em silêncio, fecha a porta e afasta-se. Regressa passado pouco tempo, acenando com a cabeça na minha direcção, sempre sem proferir uma única palavra. Eu podia entrar.
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Wednesday, October 12, 2016
Frase do Dia #56
Com um dia de atraso na intenção de a partilhar com o mundo, mas muitos mais desde que se ouviu e comentou esta frase. A verdade é que dou para mim a pensar nela com alguma frequência, sobre como é cheia de sabedoria e se pode aplicar a domínios tão diversos:
«It isn’t too complex really [the strategy]. A to B as fast as you can go and hope for the best. Close the eyes and pull like a dog.»
Palavras dos irmãos O'Donovan, mais conhecido como a dupla de remadores irlandesa que dá as entrevistas mais divertidas dos Olímpicos. Para ver, em primeira mão (ou olho) aqui.
E só para que conste, eles conseguiram a primeira medalha de prata para a Irlanda em remo. Alguma coisa estão a fazer bem.
«It isn’t too complex really [the strategy]. A to B as fast as you can go and hope for the best. Close the eyes and pull like a dog.»
Palavras dos irmãos O'Donovan, mais conhecido como a dupla de remadores irlandesa que dá as entrevistas mais divertidas dos Olímpicos. Para ver, em primeira mão (ou olho) aqui.
E só para que conste, eles conseguiram a primeira medalha de prata para a Irlanda em remo. Alguma coisa estão a fazer bem.
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