Outro russo. Este, de seu nome Máximo Gorki, escreve desapaixonadamente o seguinte, em Vinte e Seis e Mais Uma:
«O silêncio é terrível e doloroso apenas para aqueles que disseram tudo e já nada têm para dizer, enquanto, para aqueles que nunca tiveram nada para dizer, o silêncio é simples e fácil...»
That's it.
Wednesday, May 16, 2012
Wednesday, May 2, 2012
Frase do Dia #30
O Crocodilo, de Fiódor Dostoievsky, é um manancial de trechos fabulosos (e absurdos, também). Começo aqui por citar um dos diálogos que considero mais interessantes:
[Contextualização: um homem, Ivan Matveitch, vai ver uma exposição onde figura um crocodilo e acaba na barriga do animal. Um amigo do homem na barriga do crocodilo procura soluções para o ajudar e pede conselho a um funcionário seu colega mais velho, Timofey Semyonitch.]
«- Imagine - afirmou ele -, sempre pensei que isto lhe acabaria por acontecer, certamente.
- Porquê, Timofey Semyonitch? É um incidente deveras invulgar...
- Admito-o. Mas toda a carreira do Ivan Matveitch no emprego estava a caminhar para este fim. Ele era deveras inconsistente e presunçoso. Estava sempre a falar do progresso e de ideias de todos os tipos, e é isto que o progresso traz às pessoas!
- Mas foi um incidente invulgar e não pode servir de regra aplicável a todos os progressistas.
- Sim, com efeito, pode. Garanto-lhe que é o resultado de instrução a mais. Pois a instrução a mais leva as pessoas a meterem o nariz onde não são chamadas.
[...]
- Ivan Matveitch anseia pelos seus conselhos, anseia pela sua orientação. Ele suplica por eles, com lágrimas nos olhos, por assim dizer.
- Com lágrimas nos olhos, por assim dizer! Hum! Isso são lágrimas de crocodilo e não se pode confiar muito nelas.»
[Contextualização: um homem, Ivan Matveitch, vai ver uma exposição onde figura um crocodilo e acaba na barriga do animal. Um amigo do homem na barriga do crocodilo procura soluções para o ajudar e pede conselho a um funcionário seu colega mais velho, Timofey Semyonitch.]
«- Imagine - afirmou ele -, sempre pensei que isto lhe acabaria por acontecer, certamente.
- Porquê, Timofey Semyonitch? É um incidente deveras invulgar...
- Admito-o. Mas toda a carreira do Ivan Matveitch no emprego estava a caminhar para este fim. Ele era deveras inconsistente e presunçoso. Estava sempre a falar do progresso e de ideias de todos os tipos, e é isto que o progresso traz às pessoas!
- Mas foi um incidente invulgar e não pode servir de regra aplicável a todos os progressistas.
- Sim, com efeito, pode. Garanto-lhe que é o resultado de instrução a mais. Pois a instrução a mais leva as pessoas a meterem o nariz onde não são chamadas.
[...]
- Ivan Matveitch anseia pelos seus conselhos, anseia pela sua orientação. Ele suplica por eles, com lágrimas nos olhos, por assim dizer.
- Com lágrimas nos olhos, por assim dizer! Hum! Isso são lágrimas de crocodilo e não se pode confiar muito nelas.»
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Tuesday, May 1, 2012
Frase do Dia #29
A propósito dos livros velhos (re)encontrados no escritório e dos russos, eis este trecho retirado do mini-livro Contra o Fanatismo de Amos Oz, que foi oferecido, num dia já distante, com o jornal Público:
«O bairro estava cheio de tolstoianos - pessoas que acreditavam na ideologia de Tolstoi -, alguns até tinham o mesmo aspecto e vestiam-se como Tolstoi. Deixavam crescer a mesma barba branca e usavam uma espécie de toga russa cingida por uma corda. Pareciam mais tolstoianos do que o próprio Tolstoi. Quando, pela primeira vez, vi uma fotografia de Tolstoi na contracapa de um dos seus romances, estava convencido de que era alguém do nosso bairro. [...] Deste modo, eram tolstoianos, mas muitos deles tinham saído directamente de um romance de Dostoievski porque tinham uma mente e uma alma muito torturadas, cheias de contradições, de raiva e conflito. Diria até mais: aqueles dostoievskianos tolstoianos pertenciam, na realidade, a uma história de Tchekov. O espírito real do bairro não era nem Tolstoi nem Dostoievski: era Tchekov. A nostalgia de lugares longínquos. Em algum lugar para lá do horizonte estava a amada cidade de Moscovo, Moscovo...»
«O bairro estava cheio de tolstoianos - pessoas que acreditavam na ideologia de Tolstoi -, alguns até tinham o mesmo aspecto e vestiam-se como Tolstoi. Deixavam crescer a mesma barba branca e usavam uma espécie de toga russa cingida por uma corda. Pareciam mais tolstoianos do que o próprio Tolstoi. Quando, pela primeira vez, vi uma fotografia de Tolstoi na contracapa de um dos seus romances, estava convencido de que era alguém do nosso bairro. [...] Deste modo, eram tolstoianos, mas muitos deles tinham saído directamente de um romance de Dostoievski porque tinham uma mente e uma alma muito torturadas, cheias de contradições, de raiva e conflito. Diria até mais: aqueles dostoievskianos tolstoianos pertenciam, na realidade, a uma história de Tchekov. O espírito real do bairro não era nem Tolstoi nem Dostoievski: era Tchekov. A nostalgia de lugares longínquos. Em algum lugar para lá do horizonte estava a amada cidade de Moscovo, Moscovo...»
Sunday, April 29, 2012
Frase do Dia #28
Carson McCullers, a senhora do Lonely Hunter - que é o Heart - e que faz parte das minhas principais escolhas literárias, sempre que possível. Aqui, numa das short-stories reeditadas pela Penguin em Wunderkind.
[Breve contextualização: o homem que se dirige ao rapazito que distribui jornais e que acaba de entrar no café explica-se a propósito da sua teoria sobre o amor e sobre como se apaixonou.]
«"I'm not explaining this right. What happened was this. There were these beautiful feelings and loose little pleasures inside me. And this woman was something like an assembly line for my soul. I run these little pieces of myself through her and I come out complete.»
[Breve contextualização: o homem que se dirige ao rapazito que distribui jornais e que acaba de entrar no café explica-se a propósito da sua teoria sobre o amor e sobre como se apaixonou.]
«"I'm not explaining this right. What happened was this. There were these beautiful feelings and loose little pleasures inside me. And this woman was something like an assembly line for my soul. I run these little pieces of myself through her and I come out complete.»
Monday, April 23, 2012
Frase do Dia #27
Sem aparente espectacularidade, este trecho de Rentes de Carvalho, retirado de La Coca, ficou gravado na minha memória:
«Para mim 1963 tinha sido um ano mau. O princípio de 1964 mostrava-se ainda pior, o que por uns meses me levou a trocar Amsterdam por Paris. [...]
Em circunstâncias semelhantes, a vida quase sempre se encarrega de dar às situações um toque de absurdo. Assim me acontecia ser convidado com frequência para festividades em que a abastança dos presentes era tão natural que não ocorreria a ninguém que andasse por ali um depenado. [...]
Essas discrepâncias do meu viver devia-as em parte a Madame, que nessa altura já regressara a Paris e vivia então num maravilhoso apartamento do número 7 da Rue des Grands Augustins. Picasso, para ela também como para o lorde, un très cher ami, era o vizinho de cima e eu, com a admiração que o artista me merecia, quando cruzava com ele na escada ou na cour, fazia-lhe respeitosamente a vénia.
Até ao dia em que o acaso quis que o mestre viesse a sair quando Madame e eu íamos a entrar. Beijos dos dois - curiosa cena, aquela mulher muito alta a beijar Picasso - apresentação. Um aceno e um olá do mestre, em seguida uma afirmação críptica da minha amiga: José c'est le jeune homme dont je vous ai parlé. Corei, confuso por não saber do que se tratava, e Picasso rindo da minha confusão, agarrou-me familiarmente pelo braço:
- Tudo acaba por se arranjar, meu rapaz, o principal é saber usar la coca.
Por um instante petrifiquei, julgando que o génio da pintura tivesse perdido o juízo e me recomendasse ali sem rebuço o vício da cocaína. Mas no momento seguinte já ele apontava para a minha cabeça:
- La coca, hombre, la cabeza, la tête! Só se precisa dessa. O resto... - e com um floreado Au revoir! saiu para a rua.»
«Para mim 1963 tinha sido um ano mau. O princípio de 1964 mostrava-se ainda pior, o que por uns meses me levou a trocar Amsterdam por Paris. [...]
Em circunstâncias semelhantes, a vida quase sempre se encarrega de dar às situações um toque de absurdo. Assim me acontecia ser convidado com frequência para festividades em que a abastança dos presentes era tão natural que não ocorreria a ninguém que andasse por ali um depenado. [...]
Essas discrepâncias do meu viver devia-as em parte a Madame, que nessa altura já regressara a Paris e vivia então num maravilhoso apartamento do número 7 da Rue des Grands Augustins. Picasso, para ela também como para o lorde, un très cher ami, era o vizinho de cima e eu, com a admiração que o artista me merecia, quando cruzava com ele na escada ou na cour, fazia-lhe respeitosamente a vénia.
Até ao dia em que o acaso quis que o mestre viesse a sair quando Madame e eu íamos a entrar. Beijos dos dois - curiosa cena, aquela mulher muito alta a beijar Picasso - apresentação. Um aceno e um olá do mestre, em seguida uma afirmação críptica da minha amiga: José c'est le jeune homme dont je vous ai parlé. Corei, confuso por não saber do que se tratava, e Picasso rindo da minha confusão, agarrou-me familiarmente pelo braço:
- Tudo acaba por se arranjar, meu rapaz, o principal é saber usar la coca.
Por um instante petrifiquei, julgando que o génio da pintura tivesse perdido o juízo e me recomendasse ali sem rebuço o vício da cocaína. Mas no momento seguinte já ele apontava para a minha cabeça:
- La coca, hombre, la cabeza, la tête! Só se precisa dessa. O resto... - e com um floreado Au revoir! saiu para a rua.»
Sunday, April 22, 2012
Sem número, número 1
Calçaram-se galochas - o tempo adivinhava chuva. A chuva não veio - caíram somente umas gotas. O dia correu, os sorrisos calaram-se. A indumentária não foi apropriada para as condições atmosféricas, mas adequou-se ao dia de chuva que pairou sobre o espírito.
Wednesday, April 11, 2012
Frase do Dia #26
Num dia cinzento, sentada à secretária a escrever, eis que, uma vez mais, o olhar cruza-se com a lombada de um título específico e folheia-se o livro. O que daí calhou, foi o seguinte:
«...a estupidez constitui um encanto especial numa mulher bonita. Pelo menos, conheci muitos maridos entusiasmados com a estupidez das suas esposas e que vêem nela todos os sinais da ingenuidade infantil. A beleza produz verdadeiros milagres. Todos os defeitos espirituais de uma beldade, em vez de causarem repugnância, tornam-se de algum modo incrivelmente atraentes, e o próprio vício, nelas, respira beleza; porém, se a beleza desaparecer, a mulher precisará de ser vinte vezes mais inteligente do que o homem para inspirar, se não o amor, pelo menos o respeito.»
Lê-se em «Avenida Névski», conto de Nikolai Gógol incluído na colectânea Contos de São Petersburgo. E é por trechos como este que adoro os russos.
«...a estupidez constitui um encanto especial numa mulher bonita. Pelo menos, conheci muitos maridos entusiasmados com a estupidez das suas esposas e que vêem nela todos os sinais da ingenuidade infantil. A beleza produz verdadeiros milagres. Todos os defeitos espirituais de uma beldade, em vez de causarem repugnância, tornam-se de algum modo incrivelmente atraentes, e o próprio vício, nelas, respira beleza; porém, se a beleza desaparecer, a mulher precisará de ser vinte vezes mais inteligente do que o homem para inspirar, se não o amor, pelo menos o respeito.»
Lê-se em «Avenida Névski», conto de Nikolai Gógol incluído na colectânea Contos de São Petersburgo. E é por trechos como este que adoro os russos.
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