Friday, January 29, 2021

Diário da Peste #1

Tenho fama de ser hipocondríaca. É por isso que há uns anos (cerca de 15, talvez), parti um pé, mas só tive a confirmação do diagnóstico um mês após o sucedido. 

Sei que a fama não é completamente infundada: admito que sou exagerada. Dramática, até. Perante um acontecimento que possa ter consequências catastróficas, esse é o caminho seguido e a hipótese acolhida. Felizmente, com o passar do tempo, vamos tomando consciência dos defeitos que temos e faltas que cometemos e tentamos contorná-los ou mitigá-los. Nem sempre resulta, claro.

Parece que o cansaço que sentia era, afinal, o bicho que anda nas bocas e corpos do mundo. E agora, ei-lo, acomodando-se no meu organismo, produzindo um cansaço sem fim e tosse.

Avaliando a minha situação de um ponto de vista global, estou bem. Estou óptima, até. O oxigénio não tem faltado e não necessito de assistência médica. Não serei hospitalizada e isso são muito boas notícias.

Contudo, a solidão e a tristeza são inevitáveis. Não por mim, ainda que custe pensar que não poderei aproximar-me de ninguém sem máscara nos próximos três meses, mesmo tratando-se da minha sobrinha. As minhas caretas e figuras tontas não poderão mais ser vistas por ninguém, a não ser através de videochamada. Mas isso são ninharias quando penso em quem perdeu familiares para isto e nos médicos, enfermeiros, auxiliares (a malta parece esquecer-se deles e é muito injusto) que há quase um ano que vivem dentro de fatos de astronauta, com a saúde no limite. Penso em todos os que ficarão com sequelas para a vida e naqueles que, por sofrerem com outras patologias, também se viram afectados por este vírus demoníaco.

Penso muito no que virá a seguir a este episódio desta série de muito má qualidade, e, pessimista como sempre fui, receio. Não sei o que, ou quem se salvará disto. E nem me refiro concretamente às infecções. Pior do que o bicho, preocupam-me a loucura e o egoísmo que parece ter contagiado algumas cabeças. É que essas, nem com vacinas lá vão. 

Monday, January 25, 2021

Sem número, número 48: Lei de Murphy

Algures entre Novembro e Dezembro de 2007, no meu primeiro emprego a sério, trabalhei 30 dias sem parar, sem fins-de-semana ou folgas. Era uma miúda e por uma série de motivos que não interessa desenvolver aqui, não me importei muito. Mas também porque sabia que no final desses 30 dias teria cinco de descanso por causa do Natal.

No último dia de trabalho antes das férias, quando estava para sair de casa, de manhã, tive a minha primeira contratura lombar. Não sabia o que era e sofri bastante, mas, muito curvada, lá fui trabalhar. Com drogas e pomadas, aguentei até ao final do dia, mas não me recordo se fui ou não a pé para casa. 

O dia seguinte, véspera de Natal, passei-o sozinha em casa, imobilizada na cama. Nesse dia, comi uma caixa de chocolates e bebi água, porque eram as duas coisas ao alcance do braço (os chocolates eram uma lembrança de Natal que recebera no dia anterior). Não conseguia sequer levantar-me para ir à cozinha. 

Umas semanas ou meses depois, contei isto a uma colega de trabalho. Ela riu-se muito e disse que eu era a personificação da Lei de Murphy. Não sei se alguma vez tinha ouvido falar do conceito, mas nunca mais o esqueci. 

Hoje é dia 25 de Janeiro de 2021. Passaram pouco mais de 13 anos desde esses eventos. Estou mais velha, já tive mais contraturas e envolvi-me em mais incidentes, como há pouco mais de duas semanas, quando fiz um lenho no nariz ao bater com a cara num sinal de trânsito. 

Entre o dia de ontem, em que o meu avô fez anos (87!), e o dia de hoje, o Murphy veio visitar-me. Entre derrubar uma caneca no computador, pôr um pé numa poça de água e molhar a perna, despejar um chávena de chá no colo e ter um cotonete enfiado no nariz até sentir o cérebro doer, só posso dizer que esta segunda-feira está muito perto de destronar aquele distante Dezembro em que percebi finalmente o verdadeiro significado do Natal. E da Lei de Murphy. 

Thursday, January 14, 2021

Frase do Dia #65

Folheando livros lidos há quase uma década, no tempo em que o Umberto ainda era vivo, deparo-me com esta tirada do Eco:

Como sempre, Umberto Eco (em A Passo de Caranguejo) a definir de forma simples e certeira as coisas que importam.


Thursday, December 3, 2020

Sem número, número 47: Somos o que somos (mas às vezes podemos ser diferentes)

A tirada teve lugar por acaso, numa manhã quente de finais de Setembro. Estava numa das salas da Faculdade de Letras, em Coimbra, a assistir à defesa da tese de doutoramento de uma amiga, quando esta proferiu a expressão «somos o que somos». Ri-me, assim como os restantes elementos que assistiam à prova. A tirada ficou gravada nas nossas cabeças e, mais tarde, seria evocada num grupo de conversação online, quando alguém reparou que na HBO havia uma série cujo título era «We Are What We Are».

Ontem, um colega atencioso partilhou comigo o seguinte vídeo, em que Luca Guadagnino, criador da tal série, era entrevistado a propósito da dita. Se soubesse antes que se tratava da primeira incursão do realizador no formato televisivo, talvez tivesse espreitado um episódio. Mas não imaginava e a importância que lhe conferi foi apenas a da coincidência tonta.


Felizmente, ontem dei mais atenção ao vídeo partilhado e uma mera coincidência tonta transformou-se numa espécie de epifania, agindo sobre mim como uma mola psicológica. 

A série (que não vi ainda, confesso) gira em torno de alguns adolescentes e seus respetivos pais que habitam numa base militar americana no estrangeiro (especificamente, no Veneto, em Itália). E o tema de fundo é o displacement, o deslocamento das personagens: esta mudança de lugar, de cultura e, creio eu, mais importante, de contexto. Assim que a entrevista abordou este aspeto (e Guadagnino tem tanto a partilhar sobre este assunto, que também me é muito caro), não consegui desprender a minha atenção.

Embora não tenha uma experiência tão rica e clarividente quanto a de Guadagnino, tenho uma pequena ideia do que é sair do espaço onde passámos a primeira parte da nossa vida e mudar de cenário, ainda que a uma escala menor do que a sua (nascido em Palermo, de mãe argelina e pai italiano, o realizador viveu até aos seis anos na Etiópia). Sei um pouco o que é isso de chegar a um lugar novo, que não é nosso, e sentir o deslocamento. Mas (devido talvez às minhas próprias limitações) nunca cheguei a pensar e a elaborar de modo tão claro como fez Guadagnino. Diz ele sobre a mudança de cenário e o confronto com o novo lugar:

«...you must adapt, you cannot bring your individuality to it.»

Ou seja, o indivíduo não consegue impor a sua individualidade (nem impor-se) ao contexto. Este é que conforma a pessoa, agindo sobre ela e transformando-a. Digo eu que é impossível impor a individualidade ao lugar porque a dimensão do cenário (e tudo o que ele comporta) ultrapassa a nossa: o sujeito é pequeno e não pode senão sentir-se «overwhelmed». 

No entanto, não entendo este processo como algo negativo*. Assume contornos semelhantes aos das situações de crise que operam (igualmente) transformações profundas sobre o indivíduo. Creio até, que esta é a forma mais eficaz de evoluirmos: por meio do poder avassalador de uma mudança maior do que nós, como são, afinal, todos os deslocamentos. 

*Às vezes (só às vezes!) até sou optimista. Tomem lá.

Wednesday, December 2, 2020

Sem número, número 46: A medida certa

É difícil, se não impossível, quantificar o inquantificável. Parece óbvio. Como quantificar afectos ou dores? Ou o impacto de um acontecimento nas nossas vidas? Como se vertem sentimentos para um copo medidor? Como se pesa o sofrimento? 

E como conseguimos nivelar a importância de determinados eventos? Como acertar na relevância merecida? Como se faz isso?

Peco por exagero, porque acho que os nossos actos não são inconsequentes. Haverá sempre um resultado associado à aritmética das nossas acções. Creio nisso. Contudo, essa fé (como todas as crenças, em bom rigor), não é, nem tem de ser partilhada. Ainda assim, eu (e quase todos os filósofos e percursores das ciências sociais que estudei na faculdade o escreveram) tendo a espelhar a minha visão pessoal da realidade no(s) outro(s). Aplico a minha exigência à realidade circundante. E é aqui que falho redondamente: porque não se pode fazê-lo. É um erro pensar sequer que o mundo se rege pelas minhas leis. É um pecado mortal, até: vaidade. Simplificando, é isto: pensar que a realidade é justa e recta, quando nem eu o sou, por mais que o deseje e vá tentando.

Ainda assim, posso afirmar que a realidade tem lógica. Embora se trate de uma lógica pessoal, que muitas vezes deriva de e funciona em poucas cabeças. E nós, de acordo com a nossa posição na hierarquia social ou emocional, temos de nos sujeitar a ela. E à aleatoriedade basilar da existência, que nos vai recordado dia-a-dia, que nada somos, nada sabemos e, mais importante, nada controlamos. 

Apenas somos e podemos só tentar lidar o melhor que conseguirmos com «isto» que se nos apresenta dia após dia. E procurar conferir a importância certa às acções alheias. Para não nos aleijarmos (muito).

Sunday, November 29, 2020

Frase do Dia #64

Às vezes, a pessoa cruza-se com um gajo que percebe das merdas. Outras, descobrimos miúdas que sabem como é isto de ser pessoa:




Excerto de «Vampires versus Werewolves», em Poukahangatus, de Tayi Tibble

O mundo é um lugar muito grande, cheio de diferenças. Mas, estejamos cá em cima ou lá em baixo, em Portugal ou na Nova Zelândia, o que sentimos é mais parecido do que aquilo que pensamos. 

Saturday, November 28, 2020

Sem número, número 45: Instabilidade

A instabilidade é uma merda que faz mal. É um facto. E quem disser o contrário, é, no mínimo, idiota. Por isso, parece-me inevitável sentir um misto de estupefacção e raiva quando leio/ouço notícias em que um chico-esperto afirma que as novas gerações se caracterizam pela instabilidade, que é «um traço» que as distingue. 

Como não praguejar perante tamanha estupidez? Não se trata de «um traço» das gerações mais jovens, caros. É uma condição imposta. As novas gerações existem e têm de trabalhar num mundo onde a instabilidade lhes foi apresentada como algo inevitável. Dizer que, ao contrário das gerações anteriores, os jovens «preferem a liberdade», e que «não querem ter o mesmo trabalho para o resto das suas vidas», é (permitam-me usar a expressão estrangeira), a load of bullshit. Talvez grande parte das novas gerações optasse por um trabalho estável, ou uma vida estável, se tivesse sequer a possibilidade de escolher. Só que não tem, porque não existe. 

Somos atirados para a realidade pré-existente com o pouco que temos (formação, maturidade, experiência) e, a partir daí, é desenrascar. Como se jogássemos com as cartas que um qualquer croupier escolheu para nós, tendo de nos reger pelas jogadas dos adversários, que têm na sua posse todos os trunfos de alto valor, enquanto nós tentamos apenas somar meia dúzia de pontos. Não é fácil, não é agradável, e envolve, acima de tudo, sorte. Por isso, por favor, senhores, não sejam parvos e não nos tratem como se fossemos estúpidos.

Sunday, November 8, 2020

Frase do Dia #63

Às vezes, a pessoa cruza-se com um gajo que percebe das merdas:



No meu peito não cabem pássaros, Nuno Camarneiro. 

Saturday, October 31, 2020

Sem número, número 44: The side effects of the aftershocks



Il tuffatore, Paestum

Será este um dos efeitos da pandemia? Este mergulho na memória? Recordamos mais, viajamos nas profundidades da memória porque "vivemos" menos? Convivemos menos, estamos com menos pessoas, os momentos que temos com estas poucas são mais raros e não viajamos, não visitamos outros lugares, ou os amigos que vivem noutros países. Por isso, dou por mim inevitavelmente a relembrar o que já vivi, o que já aconteceu e foi emocionante, inesquecível, até. 


Vasculhamos livros, caixas, cartas, postais. Vamos às pastas do computador, os baús modernos. Recuperamos fotos, vídeos, faixas de música. E mergulhamos nas recordações do mesmo modo que se entra nas águas quentes do Mediterrâneo. Sentimos a diferente temperatura, o mar que molha a pele e flutuamos, essa maravilhosa sensação que evoca uma dimensão distante. Recordar é assim. Produz efeitos semelhantes aos de uma droga. E, à semelhança das substâncias psicotrópicas, infelizmente (muito infelizmente), não podemos ceder o volante à memória. Corremos o risco de ficar viciados no passado, no que fomos, no que sabemos agora ter sido o nosso melhor, o tempo em que fomos belos e felizes. 


Tomamos decisões no presente que serão em breve passado, tentando trilhar um futuro que nos seja confortável. Mas nunca sabemos exactamente o que estamos a fazer. Viver é um acto de fé, em si. Esperar o melhor (das decisões, das pessoas), sabendo que não sabemos nada, nunca sabemos nada (como poderíamos, se não conseguimos prever o futuro?). 


Se temo pelo futuro? Temo. Muito. Racionalmente, sabíamos todos - excepto os cépticos tontos - que estes meses de Outono (e o Inverno que se aproxima) seriam assim, de contornos difíceis e nebulosos. Mas eu temo, à mesma, porque o futuro é uma incógnita. Temos de sair de casa, viver, mas o medo de transportar algo invisível connosco que acidentalmente mate toda a nossa família nuclear, é assustador. Muito assustador. E depois, como serão os próximos meses? Haverá um emprego para trabalhar? Dinheiro para viver? E alegria? 


O optimismo começa a esgotar-se. E, mesmo aguardando o ano inteiro pela chegada da quadra natalícia, só posso dizer que não consigo sentir-me feliz. Não consigo entender estas promoções, campanhas para comprar presentes (as Black Friday e Cyber Mondays desta vida) quando a economia se afunda e despoja tantos do trabalho, do seu ganha-pão. Este será um Natal difícil. E talvez nem o venha a ser tanto para mim. Mas para outros. 


A instabilidade abala-me o estômago. O medo entra na pele e turva o olhar. É isso. Não consigo olhar para o futuro com os óculos do optimismo. E talvez seja por isso que me vou refugiando num passado que foi feliz e trouxe amor. Algo raro e com o qual não sou presenteada com frequência. Talvez seja por isso que busco conforto na memória. E nas histórias. 

Friday, October 23, 2020

Blogception #4: Um blogue dentro de um blogue

Ontem, foi o aniversário de um querido amigo e ao jantar partilhámos histórias de viagens, de lugares que visitámos juntos e outros onde ambos estivemos, mas em separado. Um desses sítios foi Bruges, onde fui muito feliz e bebi muita cerveja. Outros tempos, tutta un'altra vita

(ALWAYS) LOOK ON THE BRIGHT SIDE OF LIFE

Há muito tempo, num post muito muito distante, declarei que a minha vida não dava um filme e teorizei sobre rotinas, afirmando que, apesar de aborrecidas, são necessárias. Esta semana, como que sentindo urgência em provar a veracidade dessa teoria, saí da minha rotina laboral, aventurando-me nuns poucos dias de férias, e, consequentemente esqueci-me que aquela era semana de Preguiça.

«Vergonha!, irresponsabilidade!», gritava a minha consciência. Como podia ser, quando anoto religiosamente a periodicidade das publicações na minha agenda e no calendário disponibilizado pelos senhores da Google? A verdade é que me esqueci porque foi uma semana atípica e só no próprio dia me dei conta do lapso.

Mas perdoe-me a meia dúzia de cidadãos leitores que duas vezes ao mês perscruta este canto. Perdoem-me, pois. Ora, encontrando-me vazia de ideias (mas cheia de chocolate), e perdendo minutos da minha vida no Facebook, apercebi-me, subitamente, graças aquelas compilações de memórias que a coisa agora faz, que o último ano (desde Fevereiro do ano passado para cá) foi dos diabos: há um ano despedia-me temporariamente do Minudências, por motivos relacionados com a minha saúde, e amaldiçoava com alguma frequência a minha mudança de cidade. Pesava sobre mim muito trabalho, uma vida não-social e uma consciência que felizmente não tem figura humana ou animal, caso contrário uma de nós já teria ido parar ao hospital vítima de violência física. 

Um ano depois, em Março de 2016, ainda a procissão vai no adro e dou por mim a verificar que já cumpri umas quantas resoluções de Ano Novo: terminar a leitura d’O Bom Soldado Svejk (check), visitar uma nova cidade (Bruges, check) e arranjar um novo corte de cabelo (finalmente, check).* Sim, não elevei muito a fasquia, mas quem disse que as resoluções têm alterar a nossa vida radicalmente? Um ano depois, raras são as semanas em que após o trabalho não tenho já uma série de actividades planeadas, que podem incluir uma ida ao cinema ou ao teatro, ler um livro numa esplanada, beber copos com os colegas de trabalho no final do horário de expediente, escrever coisas novas, ver um filme no conforto do lar, conviver com os amigos (alguns novos), ou dormir uma sesta.

Não são tarefas que mudam o mundo, mas são pequenas coisas que me impelem a seguir em frente, mesmo nos momentos menos bons. Aquelas alturas em que percebemos que não estamos a fazer aquilo com que sempre sonhámos, nem moramos onde gostaríamos de morar, nem temos algumas das coisas que pensámos que teríamos por esta altura. As sombras existem, as memórias de momentos mais felizes empurram-nos para o chão e a desilusão está aí mesmo ao virar da esquina. Cada um faz o que pode e cada qual desenrasca-se como sabe (ou como intui). Nascemos sem livro de instruções (os livros, sempre os livros!) e por mais que os pais, os avós, os tios, os primos, os amigos mais velhos, os amigos da mesma idade, pessoas estranhas, nos digam para fazer assim ou assado, nada substitui a experiência e a importância de uma queda.

Ao contrário do que fazia quando era pequena, ao ler os policiais de Agatha Christie – ou seja, fazer batota e consultar o final para verificar se o meu suspeito correspondia ao criminoso – a vida não permite dar saltos em frente só para ter a certeza se a história vai acabar bem. E, ao encontrarmo-nos aqui, presos na nossa própria narrativa, a única coisa a fazer, parece-me, é continuar em frente, página a página, capítulo a capítulo, assobiando (como recomenda Eric Idle em «Always Look on the Bright Side of Life») até ao fim.


* Também fiz uma tatuagem evocando o meu adorado Dino Buzzati. Mas não o disse porque na altura era um quase-segredo. Publicado inicialmente a 14 de Março de 2016, sem alterações.

Wednesday, October 21, 2020

Equilíbrio

Se fosse fácil encontrar um equilíbrio, todos seriamos acrobatas e viveríamos no ar, entre cordas e piruetas. Seria fabuloso, assim uma espécie d'O Barão Trepador circense. Mas não é o caso e o narrador não é Italo Calvino: não é fácil manter o equilíbrio e, por maior que seja o esforço, os pés falham e, quando se dá conta, estamos na rede (quando existe uma).

O equilíbrio é o «estado neutro entre duas forças opostas», define a Treccani. É o que, a meu ver, deveria ser sinónimo de «ideal normal». Ser equilibrado deveria corresponder à norma. Seguir a direito pelo estreito caminho de cabras neste desfiladeiro pelo qual caminhamos, sem escorregar ou cair. Como os acrobatas, deveríamos tentar manter-nos ali, na corda, pé ante pé, com a respiração certa, até chegarmos ao outro lado. Mas o equilíbrio não é fácil, ao contrário da queda.

Associo, assim, o conceito de dualidade, ao equilíbrio. O que me agrada. Apesar do equilíbrio estar também muito próximo da imprevisibilidade. O que é, para mim, um dos poucos confortos que temos - se pensarmos que temos apenas uma única certeza trágica. Sabemos que vamos morrer. Isso e os impostos são os únicos elementos que temos como adquiridos. O resto é uma incógnita. 

Os optimistas sairão à rua em festa perante a constatação, enquanto os pessimistas optarão por ficar em casa, não vá o diabo tecê-las: todos sabem que o mafarrico se esconde atrás da porta, normalmente do lado de fora, claro.

Não sou optimista, mas a fatalidade também me parece algo de exagerado, como os poemas de amor dos autores românticos alemães. Esse será o meu único equilíbrio: esperar sempre o pior cenário possível com um fio de esperança. Aí fico no meio. Não por ser onde está a virtude, mas porque, excepcionalmente, procuro distribuir equitativamente o peso, de modo a tocar em ambos os lados. Excepcionalmente. Eu, que sou uma criatura de forças opostas que torturam os poucos que de mim se abeiram. Não concebo, contudo, outra forma de viver que não esta, de oposto em oposto, dando o meu melhor para me equilibrar e não cair. E, se tiver de cair, tentando não o fazer de vestido e de perna no ar (situações que já ocorreram concomitantemente, à porta de casa).

Monday, October 5, 2020

Blogception#3: Um blogue dentro de um blogue

Agora que o Outono se instalou em pleno, dei por mim a pensar naquele texto produzido para a minha estreia na Preguiça-Mãe de Leiria e publicado no tasco Minudências algures na segunda quinzena de Setembro de 2015.

RECOMEÇAR

Há quem diga que os começos são difíceis. Abrir um novo caminho, dar início a uma nova tarefa. Eu ouço e penso nos recomeços. Os inícios têm a vantagem se colocar à nossa frente, sem mácula, limpos, contendo em si toda a esperança, toda a energia e todo o optimismo do que é novo.

Os recomeços são mais complicados. Repousam sobre obras inacabadas, a maior parte das vezes estão cheios de falhas, gralhas, erguem-se sobre erros do passado, obrigando a um esforço extra, frequentemente executado de forma contrariada.

E ainda assim, prefiro-os. Há nos recomeços a possibilidade de aprender com o que já está feito, mesmo que cheio de imperfeições, pejado de falhas. Não quero depositar toda a minha fé nos começos limpos, perfeitos. Desejo um recomeço que me obrigue a ser melhor, a evoluir. A aperfeiçoar-me, não obstante o que me antecedeu. Há uma certa beleza inerente aos Prisioneiros inacabados de Michelangelo Buonarroti que o David, do topo do seu pedestal, no seu esplendor marmóreo simplesmente não contém.

O Outono é para mim, então, a época dos perfeitos recomeços: não é o Ano Novo, o civil, ou o chinês, ainda que o ano se aproxime do seu fim e pouco falte para o seu término. No entanto, o Outono representa o final do Verão, que constitui para muitos o culminar do calendário.

A excitação do Verão desaparece, as horas de luz diminuem e as árvores, esses seres sábios (que Tolkien bem soube reconhecer), preparam-se para o tempo que há-de vir e recolhem-se à sua tranquilidade. É tempo de reflectir sobre o que fomos e fizemos nas duas últimas estações. Fomos bons para o(s) próximo(s)? Rimos o suficiente? Teremos sido felizes na conta certa?

Entro no Outono de férias, sem o rodopio do calor do Verão e a agitação das hormonas. Chego ao Outono com a tranquilidade das temperaturas frescas e o vento que agita os cabelos e as folhas que cobrem as calçadas.

Chego às férias ao mesmo tempo que a rentrée literária invade as livrarias. Folheio catálogos, leio listas, mas não há muito que me entusiasme. Noto um conjunto de títulos que assinalam o fim da Segunda Guerra Mundial e evocam os horrores do Holocausto. Não sei se precisamos de mais livros sobre a miséria e a crueldade humana. Num momento como este, talvez fosse mais importante celebrar a bondade dos homens. Não que ela abunde. Mas por isso mesmo: porque deve ser valorizada e apreciada e não nos devemos deixar normalizar pela banalidade do mal.

Há um livro, Uma Cana de Pesca para o Meu Avô, de Gao Xingjian, o primeiro Nobel chinês (mas que não é tido como tal por se encontrar no exílio há muitos anos), que embora não sendo um livro extraordinário, tratando-se de uma colecção de breves trechos, tem passagens belas. Numa delas, de que me recordo frequentemente, em que o avô dialoga com o neto (se a memória não me atraiçoa) diz-se que os homens são maus e que o avô prefere os tigres aos homens maus. Ainda assim, ele prefere debruçar-se sobre a «bondade do coração humano». E talvez também nós o devêssemos fazer. Não só agora, mas para sempre.


(Com algumas alterações.)

Saturday, October 3, 2020

Cenas e coisas que tais aleatórias #4

Robert Smith cantava que à sexta-feira estava apaixonado. Às sextas, eu diluo-me em álcool, à espera que a minha essência ou os meus demónios se evaporem.

Mergulho em taças de vinho à espera que os ombros abandonem o estado de alerta e permito que a minha mente recorde todos os minutos bonitos que antecederam os fins. Por instantes, um sorriso aflorará e lembrar-me-ei do dito «Mais vale ter amado...». (O conforto é válido em qualquer forma, desde que não magoe ninguém.)

Às sextas, ao final da tarde, suspende-se a soma das horas e o tempo parece eterno perante a perspetiva do fim-de-semana. Não são as vistas que encurtam. É só a vida que encolhe nos dias úteis. E nós que somos mais pequeninos nas horas que nos sobram.

(O Iggy canta melhor aquilo que penso do que o Robert. Só isso.)

Friday, October 2, 2020

Sem número, número 43: A vida, modo de usar

«Parabéns. É o feliz proprietário de um corpo humano. A partir deste momento poderá executar todo um conjunto de actividades, como respirar, comer, dormir, falar, pensar (diferentes níveis dependerão do modelo em questão), andar, entre tantas outras. Iremos guiá-lo passo a passo para que possa levar a cabo todas estas funções em segurança. Sem se esbardalhar.»

Não, não se trata do parágrafo inicial de A vida, modo de usar, de Georges Perec, mas é assim que imagino que deveria ser a introdução do manual de instruções com o qual todos deveríamos vir equipados à nascença. Mas, tal como uma compra manhosa no OLX, também o nosso binómio consciência-corpo chega à idade adulta sem fazer a mínima ideia como operar este aparelho. 

Haverá os mais tech-savvy que alegarão, à partida, que está tudo controlado, já leram muito sobre o funcionamento e é fácil: chegas aos 30, emprego, namorado/a, casamento, filhos e está feito. A partir daí é deixar correr o software e confiar na qualidade do hardware

Outros, como eu, por mais que leiam o manual e peçam ajuda em fóruns online (e offline)continuam com dificuldades em operar o aparelho. É que, quando se pensa que as atualizações foram feitas e o hardware é bom, subitamente, o programa começa a dar erro. E, com frequência, o apoio técnico não consegue ajudar. Mesmo que equipamento se encontre dentro da garantia.

Era bom que a vida (e nós) fosse(mos) um pouco assim, à semelhança de um computador (ou um outro aparelho qualquer), e pudéssemos chamar um técnico que nos ajudasse a perceber porquê, de repente, nada funciona (era bom, excepto aquela parte do «sair e voltar a entrar», ou «desligue e volte a ligar». Acho que não ia dar bom resultado). 

«Relationship malfunction? Epá, espera: vamos ver o que é que está a dar erro.» E vinha daí o técnico, analisava o código, pensava, corria uns testes e puff, ia-se a ver, era um bug e a coisa resolvia-se. Só que não. A verdade é que estamos sós, estamos rodeados de bugs e só nos temos a nós próprios para os detetar. Ou para os assumir.

Sem número, número 42: Do hábito

210 dias. Passaram 210 dias desde a última vez que estive na empresa onde trabalho. Hoje regressei, ainda que apenas para buscar algumas coisas. 

O percurso foi o habitual. O mesmo que fiz, diariamente, cinco dias por semana, alguns feriados incluídos, com excepção das férias e baixas, entre o dia 12 de Maio de 2014 e o dia 6 de Março de 2020. Ou seja, cerca de seis anos. Durante cerca de seis anos percorri esse caminho que, por volta das 6h30 da manhã, sem trânsito ou chuva, demora dez minutos a fazer.

O itinerário foi o mesmo, ainda que num horário diferente. E, para meu espanto, após atravessar a ponte e contornar algumas rotundas, hesitei no caminho. Foram apenas instantes, uns segundos, mas a hesitação surpreendeu-me.

Nestes seis anos de regresso a Coimbra, houve fins-de-semana em que, rumando a casa dos meus pais (que se situa no sentido oposto ao da empresa), dei por mim a caminho do trabalho. O corpo entrou em modo piloto automático - talvez o cansaço ou a cabeça a mil - e seguiu a rota dos dias úteis.

Supostamente, old habits die hard. Na verdade, descobri hoje, são apenas necessários 210 dias para quebrar uma rotina. Mas talvez nem seja preciso tanto tempo para matar um hábito. Do mesmo modo que não é impossível impor um novo. Tal como um ditador, após a queda de um, é sempre possível substituí-lo por outro. Basta tentar. 

Thursday, October 1, 2020

Sem número, número 41: Memória selectiva

Recordo-me de ter lido algures, há não muito tempo, que a memória não é uma coisa estática e se transforma com o passar do tempo. Isto é, os acontecimentos, como os recordamos, não serão iguais na nossa mente aos 30 ou aos 60, porque a memória trabalha sobre eles (creio eu) de acordo com as nossas vivências e a passagem do tempo e, possivelmente - I ain't no neurologist - com a morte dos pobres neurónios. [Acho que era maizómenos isto que o artigo que li dizia.]

Isto, enquanto leiga e por meio do senso comum, faz todo o sentido para mim: os eventos que nos trazem felicidade, certamente serão recordados de modo florido, bonito, com um sorriso na cara. As tragédias, essas, serão lembradas com tristeza. Ou serão, até, simplesmente esquecidas.

É curioso como os sentimentos agem e influenciam as recordações. E não é, então, de espantar, que duas pessoas, que partilharam um acontecimento, descrevam o sucedido de modo tão díspar. 

Lá em casa este fenómeno constata-se ao domingo, normalmente durante o almoço. Não há nada que mais me maravilhe e tire do sério do que as versões que a minha mãe tem de alguns eventos da minha vida. O modo como os descrevemos fazem pensar que uma de nós estaria embriagada na altura (provavelmente eu, mas apenas por uma questão de estatística). No entanto, o facto de a minha mãe ter 63 anos e eu 35, e termos cérebros em condições diferentes deve estar na origem dessa diversidade.

Outro aspeto que me maravilha é o modo como as memórias dolorosas se esquecem perante as felizes. Exemplo: uma mulher dá à luz uma criança após horas de dores intensas e horríveis. Passado um ano ou dois, a mulher decide ter outro filho e sujeitar-se novamente a longas horas de sofrimento físico para pôr o bebé cá fora. Não creio que haja muitas situações em que uma pessoa mentalmente sã decida sujeitar-se a uma dor que já conhece, ou a uma situação que sabe que será difícil fisicamente (os adeptos da cirurgia estética também o fazem, sim, mas eu referia-me a «pessoas mentalmente sãs»). 

Segundo consta, a lembrança da dor vai-se diluindo e, as memórias felizes acabam por se sobrepor à recordação das horas de sofrimento. (Claro que não sucede em todos os casos, haverá mulheres que tiveram partos tão terríveis que nunca mais quiseram arriscar repetir a experiência. Mas isso é como tudo na vida. Há a maioria e depois há as excepções. Adiante.) Creio que há um mecanismo biológico ligado a isto, que serve para assegurar a perpetuação da espécie. O que faz todo o sentido.

O que me surpreende é quando não se trata de manter a presença humana no planeta e, ainda assim, a mente age de modo semelhante com coisas tontas. Como adoçar as memórias de um relacionamento tumultuoso: quando damos conta, ainda que, factualmente, 90% do tempo tenha sido passado a discutir, os 10% de arco-íris e unicórnios (ou sunshine and rainbows) prevaleçam sobre tudo o resto e seja isso que guardamos do/da mais-que-tudo. Mesmo que ele/ela seja uma besta.

Pior, só mesmo quando a memória relega para segundo plano as lembranças do sofrimento e rejeição passados e dá lugar aos (poucos) momentos felizes que se tiveram, simplesmente porque nos sentimos vulneráveis no presente. E depois, damos por nós a pensar que talvez não fosse má ideia enviar uma mensagem, ou escrever uma carta à besta que nos deu com os pés. 

Enfim. É tudo espectacular, não é?

Wednesday, September 30, 2020

Sem número, número 40

«You've got this strange effect on me and I like it»


(Digam o que quiserem da série, mas as roupas da Villanelle são fantásticas e a música é de embalar sonhos.) 

Monday, September 28, 2020

Frase do Dia #62

Do amor, segundo Amerigo Ortea, em O Dia de um Escrutinador, por Italo Calvino:


Refere-se ao amor paternal, mas diria que se pode usar com a finalidade que se desejar. 


Saturday, September 26, 2020

Sem número, número 39 (mas que devia ter outro número)

Tentei, há algum tempo, deixar de me pensar em demasia. Porque consome muito tempo e gera ansiedade. É melhor pensar no que temos em redor. Ou melhor: em quem nos rodeia.

Durante três anos, quem me rodeava e me mantinha os pés assentes no chão, esteve ausente. Cedo me apercebi do impacto que essa ausência tinha na minha percepção da realidade. Todos precisamos de uma espécie de bússola moral, que não é, no meu caso, uma simples bússola moral. É uma real bússola humana, que me auxilia a encontrar o referente externo do "outro". Para uma pessoa egocêntrica, uma destas bússolas é essencial. Ou, pelo menos, é-o para uma egocêntrica que não quer perder o Norte.

A minha irmã é a minha bússola. Se consigo, apesar das minhas falhas, ver através de olhos alheios, é graças a ela. Nunca deixou de martelar esta dura cabeça, mesmo nos momentos mais críticos, e conseguiu sempre trazer-me de volta à realidade. E fazer-me compreender o mundo a partir do olhar dos outros.

Por isso, a poucos dos dias do seu aniversário*, escrevo estas palavras lamechas. Que são sobre mim (ou não fosse eu uma criatura que acha que é tudo sobre mim - mesmo os incêndios na Califórnia ou os terramotos na Nova Zelândia), mas não existiriam sem a minha irmã.

E é isto. Feliz aniversário, Sorella.


*Escrevi isto quatro dias antes do aniversário, mas a vida, às vezes, mete-se no meio das palavras, por isso vai só agora.

Wednesday, September 23, 2020

Blogception#2: Um blogue dentro de um blogue

A propósito da poesia e da minha relação com ela, lembrei-me ontem que já havia abordado o assunto há uns anos. Mais precisamente no início de Novembro de 2013, no Minudências

ENTRANDO DOCILMENTE NESSA NOITE SERENA

Ou, pervertendo o original de Dylan Thomas: «do go gently into that good night». E segue a declaração de interesses: não sou amiga da poesia. Não tomo chá com ela ou vamos juntas às compras. Não somos amigas, pronto.

Não nos relacionamos mal, contudo. Gosto dela e até aprecio a sua companhia. Mas só às vezes. É como aquele «amigo/a» de quem gostamos, até, mas com o qual temos medo de passar demasiado tempo, porque não queremos apanhar seca. [OK. Uma pessoa assim como eu.]

Ainda assim, já li Dylan Thomas, Wislawa Szymborska, Herberto Hélder, um poucochinho de António José Forte, Al Berto, e.e.cummings, William Blake e mais uns quantos, creio. Estes são os que moram nas minhas estantes ou que por lá já passaram (excepto o António José Forte).

Enfim. Não sei muito sobre ela, a verdade é essa, muito embora já tenhamos sido apresentadas há muito tempo. O que se passa é que as nossas relações não começaram da melhor forma.

Deixem-me ser exacta: o problema da minha ausência de intimidade com a poesia não vem do momento em que nos conhecemos. Quando me foi apresentada, até correu tudo bem: devia ter entrado há pouco tempo na idade dos dois dígitos e lia alguns clássicos portugueses, como Camões ou Florbela. Não me recordo de reflectir muito sobre o assunto ou tema, mas soava bonito.

Entretanto cresci mais uns anos e acabei por ter Português A, no ensino secundário. O extermínio da beleza da poesia e a professora da altura conduziram a um afastamento. Com alguma dor, até.

Só recentemente, há cerca de quatro anos, por influência de um caro amigo, recuperei o velho interesse e recomecei a ler poesia. Sempre por recomendações. Nunca nos tornámos íntimas, e achei melhor confiar no conselho de quem é leitor mais experiente do que eu.

Portanto, não sou a melhor pessoa para avaliar a qualidade de um texto poético. Mas diz que anda por aí muito poeta nacional de categoria. E curiosamente, a poesia, que não vende, vai vendendo. Talvez porque a lógica do mercado não a conseguiu dominar e esta deixou-se estar no seu nicho, sossegada, mas sustentável.

Lembrei-me disto porque soube que foi ontem apresentado na FNAC de Coimbra o novo livro de poesia de Luís Quintais, Depois da Música (Edições tinta-da-china). Este é o terceiro livro da colecção de poesia coordenada pelo Pedro Mexia nesta editora, que não tinha propriamente uma «tradição poética». É coisa rara, nestes tempos, ver editoras inaugurarem colecções de poesia e, ainda para mais, com obras de autores contemporâneos, porque, como disse, por mais prazer que possa gerar, é um género pouco marqueteiro. E talvez pelos motivos que aqui expus: porque é preciso conhecê-lo bem, para entendê-lo. Se calhar, a poesia sente-se mais do que se lê. De qualquer modo, eu cá continuarei com os meus velhos hábitos, visitando-a de tempos a tempos e cumprimentando-a sempre que a vir atravessar a rua.

(Publicado a 7 de Novembro de 2013, sem alterações.)