Thursday, September 20, 2012

Sem número, número 5.1



E pronto, achei que deviam saber do que estava falando. Cá está o Mihaly «blá-blá-blá» como doravante passará a ser aqui designado. Parece que ele percebe da poda.

Sem número, número 5

Há momentos de grande ironia. Ultimamente, a ironia veio esfregar-se na minha cara, embora sem me ter feito sorrir: apercebi-me que, tendo redigido uma tese sobre criatividade, sou uma pessoa onde tal capacidade está ausente.

Passei cerca de um ano e meio a ler livros sobre o tema e afins e a escrever sobre isso. Houve um dia, até, depois de algumas leituras realizadas, em que, a meio da noite, qual um dos casos relatados em Creativity, de Mihaly Csikszentmihalyi, me levantei da cama, peguei numa folha de papel e escrevi a introdução da tese - o primeiro esboço. Ocorreu-me enquanto esperava o sono que não chegava.

Apesar desse episódio, não sou uma pessoa criativa. Quer dizer, talvez até possa ser, mas somente numa área que domine bem - e que agora não me ocorre qual. O que Mihaly «blá-blá-blá» (não sei pronunciar o nome dele. Quando o meu co-orientador, que é também meu amigo, o citou durante a defesa de tese, demorei alguns segundos a perceber que ele estava a pronunciar o impronunciável nome do senhor de origem húngara), afirma, é que, primeiro, a criatividade não é uma cena de geração espontânea, nem vem codificada no genoma. Na verdade, além de, como afirma, não acontecer na cabeça das pessoas, mas na interacção entre elas, deriva da conjugação de três elementos que compõem um sistema, sendo que um deles é um conhecimento profundo da área de actuação/especialização do indivíduo em questão. Dificilmente eu poderia ser criativa em Matemática, dado que aos 15 (!!!) me foi deixada de leccionar e, como qualquer linguagem, se não praticamos, lá se vai gramática e vocabulário pelo ralo da memória abaixo. Não tenho um conhecimento da área. Sei o básico. Isso não me prepara para ser criativa.

Estou a extrapolar, claro,  mas acho que vocês conseguem o ponto, ou numa tradução literal «you get the point». 

Na minha área de actuação já tive os meus momentos, não brilhantes, mas bons. Enquanto trabalhei como jornalista, fui sugerindo alguns artigos e temas e tentei, sempre que possível esgalhar bons leads e boas reportagens, na medida do possível, considerando as linhas editoriais. Não era, nem nunca fui um Hemingway do jornalismo, mas acho que não estou a ser presunçosa se disser que desempenhava bem as minhas funções.

Ainda assim, não nego a minha vertente de proletária da informação. [Ah, sim, não sei se já cá teria sido referido algures, mas eu tenho formação jornalística. Não sou jornalista, porque não tenho sentimento de classe, mas tenho uma licenciatura nisso - vale o que vale, já se sabe - e trabalhei em jornais, ainda que por breves períodos de tempo.] Recordo bem o dia em que percebi que já era uma proletária da informação enformada: foi num sábado, algures no primeiro trimestre de 2008 - se estivesse em casa dos meus pais, conseguia já, com precisão, indicar o dia. Deviam ser umas 15, 16 horas. Tinha ido a uma conferência de imprensa da EDP lá do sítio - já se varreu a sigla da mente - e abordei a questão do aumento do preço da electricidade. Obtive as respostas, vim para o jornal e telefonei ao já falecido senhor do Conselho dos Consumidores - falecido de forma obscura, entretanto, suicídio na China, no continente, dizem eles - que criticou abertamente a decisão. 

Peguei nas notas, transcrevi para o Mac - hoje já não conseguia escrever com aquele teclado - e em 30 minutos, mais coisa menos coisa, tinha meia página feita [meia página de jornal, entenda-se. Deviam ser uns 4000 mil sem espaços]. Reclinei-me na cadeira e fiquei a olhar para o monitor. E atingiu-me. Eu estava a produzir notícias, como quem trabalha numa linha de montagem. Eu era uma proletária da informação. Não havia ali grande reflexão, nada. Eu ia, recolhia informações, citações, vinha, transcrevia notas, criava um conjunto de frases numa estrutura mecânica e estava feito. Eu era uma operária. Só que não lidava com pedaços palpáveis de madeira ou metal. Eu lidava com palavras, dados, informações, que me eram dadas e as quais usava para montar uma coisa. Não vejo diferença entre isso e um operário de uma fábrica.

Foi nesse dia que comecei a ponderar se realmente era aquilo que queria fazer da vida - trabalhava num diário, acrescente-se. Mas claro que o Karma, que é nosso amiguinho, resolveu a situação: criou uma crise e, qual dominó, partindo dos EUA, foi derrubando todas as pecinhas que tinha à frente e eu deixei de ter me preocupar com isso de vir a ser jornalista até ao fim dos meus dias. [Será necessário assinalar o sarcasmo?]

E pronto, isto tudo a propósito da criatividade. Não me alongo mais, porque vou agora ver o que o Mihaly dizia sobre as três componentes e ler alguns dos casos abordados no livro, que incluem «Nobéis» de diferentes áreas, Física, Literatura, e cenas assim, ou então só pessoal muito bem sucedido. Pode parecer que não, mas sempre serve para animar a malta.

Monday, September 17, 2012

Lista #9: Livros lidos desde o início até à metade do ano em que nos encontramos [Take 1]

Com interregnos literários pelo meio, pois, quando o tempo abunda, com frequência apetece apenas inserir a cabeça num buraco, qual avestruz. Claro que é um desejo arriscado: nunca se sabe quando o buraco poderá ser um ninho de vespas gigante. -.-

As Teorias Selvagens, Pola Oloixarac: já aqui falei um pouco do livro e acho que se continuar a dissertar sobre os jovens argentinos inteligentes, mas feios, que vivem neste livro, talvez acabe por matar o interesse alheio. De qualquer modo, gostei do retrato particular deste moço e moça argentinos, de Buenos Aires, que, apesar de tudo, devem configurar alguns dos indivíduos que devem compor o tecido alternativo da capital argentina.

Contra o Fanatismo, Amos Oz: este andava escondido algures numa filinha de livros há alguns anos. É livro de pequenas dimensões, ofertado na compra de um jornal Público de um dia que já esquecido na minha memória. Parece que é uma breve compilação de uns textinhos redigidos pelo senhor autor proferidos em conferências e coisas que tais. Mas é bom de se ler. Mais não seja para se poder conhecer a perspectiva de um israelita lúcido em relação ao conflito israelo-árabe.

Wunderkind, Carson McCullers: quando se gosta de determinados autores, creio ser natural buscarmos todos os títulos publicados com o seu nome. Esta prenda oferecida no ano passado, pelo final de Maio, só se leu no início deste ano, mas valeu a pena. Como já aqui apontei algures no blogue, tem até umas coisas bonitas escritas, que valem a pena ler. É uma compilação de uns poucos - cinco, se não estou em erro - contos da autora, publicados recentemente pela Penguin numa colecção que reúne outros contos ou textos breves de grandes autores.

À Volta da Lua, Jules Verne: é um daqueles livritos velhinhos - quase a cair, na verdade, não sei se da idade, se dos próprios materiais de confecção, se dos dois - da Europa-América, no qual peguei uma vez ou duas desde que o ganhei em qualquer coisa na escola (ainda no tempo do básico). Na altura, pequena, iniciei a leitura desta sequela de Da Terra à Lua e assustei-me e desisti da leitura quando vi umas quantas equações matemáticas para mim equivalentes a russo. Este ano, ao limpar estantes e prateleiras, voltei a cruzar-me com ele e achei que devia ler o livro, mais não fosse para me maravilhar com as previsões do autor. E as equações não me morderam.

Ficções de Guerra, vários:  à distância, é sempre difícil lembrar todos os contos e todos os autores que lemos. Mas houve um em particular cuja leitura apreciei bastante. Uma breve pesquisa via Google permite-me saber o nome do autor português que assina o conto de que mais gostei: José Martins Garcia. Este desconhecido contribui com «Performance», uma história breve, mas plena de humor de «um homem que, chegado a um aquartelamento na selva, não tem cama onde dormir». Apesar de apenas possuir uma vaga ideia do que foi a Guerra Colonial, este conto contraria tudo o que se poderia esperar de uma narrativa sobre  o conflito. Vale tão a pena. Tenho de encontrar o livro que inclui este conto, Katafaraum é uma Nação. Tenho mesmo.

[E foi isto que aconteceu até Abril. Pede-se desculpa pelo atraso, mas sou pessoa com uma vida - quer dizer, às vezes - para viver.]

Sunday, August 26, 2012

Sem número, número 4

Hoje, durante uma esforçada corrida - foi o terceiro dia desde que reiniciei a actividade física após semanas de imobilidade -, ao sentir dores, recordei-me de uma manhã em que acordei cedo, cerca de umas 6.30, 7.30, tomei o pequeno-almoço e me dirigi à farmácia mais próxima para comprar uma embalagem de Nurofen. Paguei, traguei dois comprimidos de uma assentada, dirigi-me ao teleférico e subi à montanha. Era o penúltimo dia de ski dessa minha estreia (e até agora, para minha tristeza, única incursão) na neve. E não havia dor muscular que me fosse impedir de subir a montanha até ao topo da última pista vermelha e descê-la o mais rápido que pudesse.

Em pouco mais de seis dias, aprendera a equilibrar-me, a travar, a curvar, a ganhar velocidade, a dar pequenos saltos, a esquiar. [Para quem se tinha em tão má conta no capítulo da prática desportiva, serviu para perceber a força e a imensidão da minha preguiça. E também o quão diferente teria sido a minha vida se alguma vez tivesse feito frente à preguiça - e aqui imagino uma preguiça gigante (o bicho) a fazer-me peito. Mas isso já é pura parvoíce.]


Vou lembrar-me até ao fim dos meus dias da primeira visão que tive da montanha, cá do fundo, junto às pistas verdes: eu soube, algures nas minhas entranhas, que queria e iria fazer tudo o que estivesse ao meu alcance para subir aquela montanha e deslizar até cá abaixo; eu a deslizar naquele manto branco; eu a escutar o silêncio do vento e dos esquis a rasgarem a neve; eu, tranquilamente, a esquiar e a divertir-me ao máximo (Claro que para isso seria necessário um domínio mínimo da coisa). Subi, desci, caí tantas vezes que perdi a conta, levei com algumas pessoas desgovernadas em cima, zanguei-me com a instrutora eslovaca, chorei e maravilhei-me perante as minhas capacidades de aprendizagem. Pela primeira vez em anos, ambicionara algo e conquistara-o. And ain't that something?

Agora, sempre que vejo uma embalagem de Nurofen, penso em ski. Mas ou é mero reflexo pavloviano ou a  memória a ser parva.

PS - A cereja no topo do bolo, o efeito inesperado de tudo isto foi ter perdido o medo/pavor (!) das alturas. Essa é que eu não esperava, mas tem-me sido bastante útil. Principalmente para caminhar sobre pontes/plataformas de vidro e/ou transparentes sem ficar paralizada, em pânico.

Thursday, August 23, 2012

A postcard a day keeps the sadness away #20


Deve ser um dos postais de que mais gosto, ainda que na altura não recebesse muitos - foi algures em 2006/2007, anos antes de saber o que era sequer o Postcrossing. Foi uma amiga minha, que encontrando-se no programa Erasmus na Holanda, viajou até Berlim e de lá mo enviou. Eu só viria a conhecer Berlim no final de 2010, numa viagem que fiz com a minha irmã para visitar uma amiga cazaquistaneza (tive de ir ao dicionário para saber como se escrevia o nome de um habitante do Cazaquistão, oh my -.-'). Gostei muito da cidade, apesar do pouco tempo que lá estive, e acho que esta imagem é-lhe bastante adequada.

Wednesday, August 22, 2012

Sem número, número 3



Ontem, ao conduzir numa estrada que conheço de cor, lembrei-me de estar num bar em Osaka, algures no meio de Namba, a beber uma cerveja (das completas, não uma meia-cerveja) com um rapaz belga a morar em Pequim e um neo-zelandês que partira a perna a esquiar algures em Hokkaidó. Estavamos sentados à janela e passou um Toyota MR2. Na rua havia umas quantas moças vestidas de meninas de colégio em cartão em tamanho natural. E eu pensei para mim que aquilo era mesmo muito japonês.  

Sem número, número 2



Quando eu era jovem (15 anos, ou à volta disso), dava-me para ouvir Rammstein, ver filmes de David Lynch – embora falte ainda visionar o Eraserhead – e ler O Nome da Rosa. Continuo a achar que me podia ter dado para muito pior.