Monday, March 12, 2012

Primeiro estranha-se, depois entranha-se #1


Fernando Pessoa era um tipo que sabia o que dizia, claro está. «Primeiro estranha-se, depois entranha-se». Tinha razão. A Pola está a dar-me algum trabalho, mas isso não é necessariamente mau. Talvez por anteriormente ter lido alguns livros «fáceis» - ou que não suscitaram muito do meu interesse e entusiasmo, quando comecei a ler As Teorias Selvagens fiquei confusa. Ou melhor, não estava a conseguir acompanhar o enredo muito bem. Parei na página 65 e pensei arrumar o livro na prateleira, amaldiçoando o dinheiro gasto e o poder de sedução da Pola - decidi comprar o livro depois de assistir em streaming à mesa em que ela participou, em conjunto com Valter Hugo Mãe, na Flip.

Não sei por que motivo, talvez a conjunção cósmica do momento, o posicionamento dos astros, mas, provavelmente graças à minha dificuldade em abandonar um livro a meio, duas semanas depois, voltei à secretária, peguei n'As Teorias Selvagens e recomecei desde o início. Uma vez mais, vá-se lá saber porquê, comecei a nutrir algum afecto pelas personagens fisicamente pouco atractivas desenhadas pela Pola. E estou a gostar bastante do livro.

Afinal, o poder de sedução da Pola estende-se à sua escrita. Mas primeiro estranha-se, depois entranha-se e no final, gosta-se.

É mesmo feia, a Pola, não é? (Pola Oloixarac na Flip.)

11-3-11

Cherry Blossom Girl foi o nick que adoptei ao criar este blogue. Surgiu pouco tempo depois de ter visitado o Japão, em Abril de 2008, no que considerei um golpe de sorte. Cheguei ao País do Sol Nascente em plena Primavera e sakuras era coisa que por lá não faltava. Fiz a viagem sozinha - o avião transportava mais passageiros, claro, mas acho que percebem o que quero dizer - e, embora não tenha visitado as cidades onde estive sozinha, a maior parte das fotos foram tiradas apenas por mim. Inclusivamente e principalmente aquela que figura no meu perfil do Blogger.

Este foi sem dúvida um dos acontecimentos da minha vida. E uso o termo «acontecimento» no mesmo sentido que é utilizado no domínio do Jornalismo - ou pelo menos nos livros que nos mandam ler quando estudamos Jornalismo. Um acontecimento é algo digno de ser noticiado. É algo importante, raro, que acontece fora da rotina. Foi esse o caso da viagem ao Japão. Recordo-me - embora o sentimento seja hoje mais esbatido, um pouco erodido pela passagem do tempo - que me senti verdadeira e profundamente feliz enquanto lá estive: sentia paz, tranquilidade, alegria e tinha a clara noção de que estava a concretizar um dos tópicos da minha lista «Coisas a fazer antes de morrer» com apenas 22 anos.

O Japão é, por isso, um lugar muito especial para mim. Ainda que a minha passagem por essas terras tenha sido breve e poucos lugares tenha visitado, fui muito bem recebida e, tal condicionamento pavloviano, associo o Japão a felicidade (um sentimento ausente de mim durante tantos anos e, como tal, hoje muito valorizado).

Há um ano, o Japão também registou «um acontecimento». Ou pior: três eventos numa só catástrofe. Um sismo de elevada(íssima) amplitude, um tsunami (gigantesco) e um acidente nuclear. A realidade ultrapassou a ficção. Recordo-me do choque das imagens das enormes ondas varrendo vilas, cidades. Casas arrastadas, barcos galgando estradas inundadas. Vi também, pela primeira vez, um fenómeno assustador: fendas percorrendo passeios e jardins, expandindo-se e fechando-se, manifestando à superfície as tensões que emergiam das profundezas da terra. Antes de ter acontecido era inimaginável. Mas aconteceu e tornou-se um facto. 

Durante um mês - dois, talvez? - assistimos diariamente, no conforto das nossas casas, bem assentes num chão menos propício a terramotos, à agonia dos sobreviventes, à dor da perda, à fome, ao seu sofrimento. E, como se não fosse suficiente sobreviver a uma catástrofe natural de tamanhas dimensões, havia ainda que tentar sobreviver à catástrofe «artificial», à radioactividade. Falou-se muito na central nuclear de Fukushima - que até então, quantos fora do Japão saberiam da sua existência? - do facto de a central não ter resistido às forças das águas, ao sismo. Falou-se no grupo de homens e mulheres que permaneceu no interior da central, tentando impedir o pior, ou, pelo menos, tentando minimizar os danos. Para o mundo, o Japão ficou associado a tragédia.

Passou um ano. Fez hoje um ano que o sismo atingiu o Japão e desencadeou o tsunami, o «acidente» na central nuclear, milhares de mortos, centenas de pessoas afectadas pela radioactividade, um pontapé na economia japonesa, acendeu um debate sobre energias renováveis, entre muitos outros efeitos impossíveis de contemplar em conjunto. Passou um ano. O tempo erodiu o espaço dado pelos meios de comunicação social à catástrofe do Japão. Afinal, já passou um ano e o Japão é distante - geograficamente e culturalmente. Passou um ano. Quantos se recordam ainda do dia exacto em que o tsunami varreu o País do Sol Nascente? Passou um ano. Quantos, fora do Japão, terão lembrado, nos meses que se seguiram ao sismo até hoje, o que se passou? Passou um ano. Independentemente de jornais e canais de televisão, estou certa de que na memória dos sobreviventes o tempo que passou não erodiu a memória do que aconteceu no dia 11 do 3 do 11.

Friday, February 24, 2012

When life gives you lemons... #2


...use them as salad dressing. And salads will do you some good.

Sunday, February 19, 2012

A postcard a day keeps the sadness away #15

A propósito de David Lynch...


... este foi o primeiro filme dele que vi, devia ter 12/13 anos. Ainda criança, vi uns episódios de Twin Peaks dos quais pouco me recordava. Tanto que, quando há alguns anos decidi rever a série, percebi que a música que tanto me assustava em pesadelos recorrentes era afinal a música do genérico de Twin Peaks. Ah, David (e Angelo Bandalamenti), sempre a marcar a vida dos espectadores!

Wednesday, February 15, 2012

Se numa noite de Inverno* uma leitora #2

Numa soalheira tarde de Inverno, a leitora, sentada à sua secretária, sentiu um piscar de olho de Dino Buzzati. Quando a noite fria chegou, a leitora decidiu-se finalmente a abrir o livro e a levá-lo consigo para a lareira (já Calvino dissertara naquele livro cujo título partilha semelhanças com o deste post sobre a necessidade de uma leitura confortável e cómoda). Sentou-se na ponta do sofá, pés apoiados no degrau da lareira, pousou com cuidado o livro nos joelhos e abriu-o, folheando delicadamente as páginas. «I sette messaggeri» é o primeiro dos Sessanta racconti. Leu sozinha em voz baixa, pronunciando vagarosamente os vocábulos italianos, ponderando o significado de cada um. Comoveu-se com a história do príncipe viajante em busca dos limites do seu reino. Leu a sua solidão, a sua morte. Entristeceu pensativamente. Terminou a leitura. Fechou o livro. Levantou-se, olhou as brasas mortas. Saiu da sala. Desapareceu na noite.


* Pois, a estação do ano e o frio que se faz sentir correspondem mesmo a isto. O Calvino sabia muito. E sabia bem como as noites frias empurram os leitores para leituras à beira da lareira.

Saturday, February 11, 2012

When life gives you lemons... #1



...you make lemon juice and get slimmer.*


*Not mad at life. Just trying to prove I'm smarter than it is. 

Wednesday, February 1, 2012

Lista #8: Não ter trabalho dá muito trabalho

Uma lista sobre os trabalhos empreendidos para conseguir sobreviver à ausência de trabalho remunerado - e isto sem chegar à cansativa fase de entrevista.

1 - Rever, reler e corrigir um CV implica paciência e uma boa memória, além de resistência psicológica: relembrar as más experiências laborais passadas traz alguns instintos psicóticos à superfície. Subitamente, fica-se com vontade de criar bonequinhos de vodoo de antigos chefes e picá-los com agulhas e alfinetes.

2 - Criar contas em sites de emprego é uma seca. Implicam 264 passos até a criação do nosso perfil estar completa e, para que a busca de empregos compatíveis com o nosso perfil seja eficaz, acabamos por receber muito lixo na caixa de correio. Mais um exercício de paciência, naturalmente.

3 - Escrever cartas de apresentação e/ou motivação é equivalente a um esfaqueamento auto-infligido com um alicate de unhas. É doloroso aos bocadinhos e implica coragem - para mim, pelo menos, que sou muito má a fazê-lo (Porque me incutiu a minha mãe aquela ideia de que mentir é feio, quando, na verdade, é tão necessário, principalmente em ocasiões como estas? Agora, esse pensamento ficou enraizado na minha cabeça e contrariá-lo torna-se muito difícil. -.-)

4 - Acordar todos os dias para fazer isto é um exercício de auto-domínio: não apetece sair do quentinho para o frio, enfrentar uma caixa de correio vazia e repetir as mesmas acções diariamente sem ter um ataque de raiva.

5 - Encontrar tarefas que ocupem os espaços vazios que decorrem depois da busca de oportunidades de emprego diárias. Ao fim de duas semanas, tarefas domésticas como passar roupa a ferro, estender roupa, arrumar roupa, arrumar cozinha, fazer camas e arrumar quartos tornam-se excruciantes, assim como actividades que deveriam ser prazenteiras, como ler, escrever, ver filmes e comer se transformam em verdadeiros sacrifícios, dada a abundância de tempo ocioso. Conclusão: tudo o que é demais, cansa. Até o tempo livre.