Perdido nas profundezas de um caderno cujos rabiscos remontam a Abril de 2005, encontrei este pedaço de texto:
«Muros altos, lisos, cuidadosamente polidos à direita e à esquerda, nem uma travessa ou passagem, nem um nicho ou reentrância, só este caminho estreito que tem de atravessar até chegar ao outro lado. Onde, ainda não sabe, espera-a uma passagem invernosa que se estende pelas lonjuras, uma paisagem em que não se ergue um único castelo que a salve e ao qual não conduz um único caminho.»
E foi isto que retive da leitura de A Pianista, da Prémio Nobel de Literatura, Elfriede Jelinek.
Saturday, January 5, 2013
Thursday, January 3, 2013
Lista #9: Livros lidos desde o início até metade do ano em que nos encontrávamos antes [Take 2]
O ano passou já, mas posso continuar a listar os livrinhos que fui lendo ao longo do ano passado ao ritmo que bem me apetecer.
O Crocodilo, Fiódor Dostoiévski: O Crocodilo é um livrinho pequenininho que relata a história de um senhor que, um dia, em Moscovo, cai na boca de um crocodilo - ninguém adivinharia - e por lá fica, mandando uns bitaites sobre o mundo e coisas assim. É hilariante. Nunca pensei que o o amigo Fiódor fosse capaz de tanto humor.
Alien, O Oitavo Passageiro, Alan Dean Forster: como tenho uma história pessoal conflituosa com os filmes - que não vi na totalidade, ainda - achei que ler o filme era capaz de ser uma boa ideia. E além disso, o livro por lá andava perdido numa estante, achei melhor ver o que tinha dentro.
Vinte e Seis e Mais Uma, Máximo Gorki: são duas histórias e não são feitas para rir. É muito triste, na verdade. Mas o homem escrevia que era uma categoria, ó sim.
No Rasto do Corsário Coja Acém, Fernão Mendes Pinto: acho que em 2008, que foi quando comprei o livro, comecei logo a lê-lo [aliás, lembro-me de estar na sala de espera do gabinete do dentista a tentar concentrar-me na leitura apesar do barulho daquelas coisas horrendas que nos metem na boca]. Mas só este ano voltei a lê-lo desde o início até ao fim. Desgraçado Fernão, que tanta desventura sofreu pela Ásia. [Hum... isto recorda-me alguém...]
O Pátio Maldito, Ivo Andríc: depois de lê-lo, coisa que me agradou bastante, apesar de ter sido lido nas 5/6 horas em que estive à espera de ser atendida no Centro de Emprego, achei curioso o modo como o senhor parece abordar/recriar personagens que são moldadas pelos espaços/lugares onde estão e/ou vivem. Mas deve ser natural, dada a nacionalidade do senhor e o período histórico em que viveu. E sim, gosto muito.
O Crocodilo, Fiódor Dostoiévski: O Crocodilo é um livrinho pequenininho que relata a história de um senhor que, um dia, em Moscovo, cai na boca de um crocodilo - ninguém adivinharia - e por lá fica, mandando uns bitaites sobre o mundo e coisas assim. É hilariante. Nunca pensei que o o amigo Fiódor fosse capaz de tanto humor.
Alien, O Oitavo Passageiro, Alan Dean Forster: como tenho uma história pessoal conflituosa com os filmes - que não vi na totalidade, ainda - achei que ler o filme era capaz de ser uma boa ideia. E além disso, o livro por lá andava perdido numa estante, achei melhor ver o que tinha dentro.
Vinte e Seis e Mais Uma, Máximo Gorki: são duas histórias e não são feitas para rir. É muito triste, na verdade. Mas o homem escrevia que era uma categoria, ó sim.
No Rasto do Corsário Coja Acém, Fernão Mendes Pinto: acho que em 2008, que foi quando comprei o livro, comecei logo a lê-lo [aliás, lembro-me de estar na sala de espera do gabinete do dentista a tentar concentrar-me na leitura apesar do barulho daquelas coisas horrendas que nos metem na boca]. Mas só este ano voltei a lê-lo desde o início até ao fim. Desgraçado Fernão, que tanta desventura sofreu pela Ásia. [Hum... isto recorda-me alguém...]
O Pátio Maldito, Ivo Andríc: depois de lê-lo, coisa que me agradou bastante, apesar de ter sido lido nas 5/6 horas em que estive à espera de ser atendida no Centro de Emprego, achei curioso o modo como o senhor parece abordar/recriar personagens que são moldadas pelos espaços/lugares onde estão e/ou vivem. Mas deve ser natural, dada a nacionalidade do senhor e o período histórico em que viveu. E sim, gosto muito.
Wednesday, January 2, 2013
Cenas da vida no campo #2
Aos 27 anos de idade ouviu, pela primeira vez, a mãe falar-lhe de álcool e sobre como não deve beber em demasia. Aos 27. Se tivesse sido aos 17 - isso -, antes de entrar na faculdade e perceber que, apesar de não gostar de cerveja, a cerveja não era má, ainda entendia. Foi aos 27, depois de ter aprendido a amar a cerveja, a boa, a brune, as Chimay, as Duvel, as Delirium Nocturnum e a perceber que Franziskaner não é «a sua praia».
Ainda antes dos 27, percebeu também a relação qualidade-preço dos vinhos da Península de Setúbal, embora os alentejanos e os dourienses - tintos, sempre - sejam, sem dúvida, muito bons. Aprendeu, entretanto, o sabor forte da Touriga Nacional e a suavidade da Trincadeira, embora quando se compare com Cabernet-Sauvignon esta tenha um travo mais intenso.
Depois da vindima, percebeu que a Fernão Pires é a melhor casta de todas e o quanto a água-pé pode ser refrescante pela jovem idade. Já aos 27 aprendeu a distinguir os diferentes verdes e a reconhecer Loureiro e Trajadura e, naturalmente, a apreciar a leveza do Alvarinho. Tudo isto aconteceu muito antes de tal conversa e através de anos de experiência. Daí que ainda me espante da ocorrência do sucedido. Mas já diziam os outros: «Nobody expects the Spanish Inquisition.»
[Para não mencionar as repetidas incursões a caves de vinho do Porto, nomeadamente, Ferreira, Ramos Pinto, Calém e Sandeman, assim como as visitas a adegas e quintas, como a de Monção, Reguengos de Melgaço e Monte dos Perdigões.]
Ainda antes dos 27, percebeu também a relação qualidade-preço dos vinhos da Península de Setúbal, embora os alentejanos e os dourienses - tintos, sempre - sejam, sem dúvida, muito bons. Aprendeu, entretanto, o sabor forte da Touriga Nacional e a suavidade da Trincadeira, embora quando se compare com Cabernet-Sauvignon esta tenha um travo mais intenso.
Depois da vindima, percebeu que a Fernão Pires é a melhor casta de todas e o quanto a água-pé pode ser refrescante pela jovem idade. Já aos 27 aprendeu a distinguir os diferentes verdes e a reconhecer Loureiro e Trajadura e, naturalmente, a apreciar a leveza do Alvarinho. Tudo isto aconteceu muito antes de tal conversa e através de anos de experiência. Daí que ainda me espante da ocorrência do sucedido. Mas já diziam os outros: «Nobody expects the Spanish Inquisition.»
[Para não mencionar as repetidas incursões a caves de vinho do Porto, nomeadamente, Ferreira, Ramos Pinto, Calém e Sandeman, assim como as visitas a adegas e quintas, como a de Monção, Reguengos de Melgaço e Monte dos Perdigões.]
Friday, December 28, 2012
Frase do Dia #37
Rumo a casa, antes de penetrar nas entranhas da terra - vulgo metro -, achei que deveria dar um salto a uma livraria. Fui, entrei, dirigi-me à estante pretendida e encontrei imediatamente o que queria, rejubilando, porque havia apenas um exemplar do livro desejado.
Tendo já devorado meio livro, que já se vai colorindo de sublinhados, eis algo que entrou pelos olhos dentro:
«O mundo inteiro puxa-nos para baixo, mas as mãos de quem gosta de nós atiram-nos para o alto. Sem se cansarem.»
E eu pensei, ao ler O Pintor Debaixo do Lava-loiças, do Afonso Cruz, na minha família e nas poucas - mas maravilhosas - pessoas que ainda se preocupam comigo.
Wednesday, December 19, 2012
Frase do Dia #36
Meditando sobre o objecto do jantar, que envolveria pequenos pedaços trucidados de um chouriço, eis que penso sobre os prazeres da carne e da comida, no geral. Assoma ao pensamento a visita do senhor Palomar ao talho, durante uma ida às compras, como nos conta Italo Calvino:
«Um sentimento não exclui o outro: o estado de alma de Palomar na bicha do talho é simultaneamente de alegria contida e de temor, de desejo e de respeito, de preocupação egoísta e de compaixão universal, o estado de alma que outros talvez exprimam na oração.»
É por isto que os prazeres e as tentações da carne andam de mãos dadas com a religião.
(Já Fellini dizia que isso tudo se concentrava em Roma - filme e cidade -, algures entre os devoradores de pasta, as prostitutas e os desfiles de moda religiosa.)
«Um sentimento não exclui o outro: o estado de alma de Palomar na bicha do talho é simultaneamente de alegria contida e de temor, de desejo e de respeito, de preocupação egoísta e de compaixão universal, o estado de alma que outros talvez exprimam na oração.»
É por isto que os prazeres e as tentações da carne andam de mãos dadas com a religião.
(Já Fellini dizia que isso tudo se concentrava em Roma - filme e cidade -, algures entre os devoradores de pasta, as prostitutas e os desfiles de moda religiosa.)
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Sem número, número 10
era de Magritte que me recordava, do Império das Luzes.
foi com esse quadro que sonhei naquela noite.
mas era natural, pois nessa noite finalmente repousara em casa depois da viagem a Veneza.
Veneza, que anos antes me fascinara à chegada.
mal pus os pés fora da estação e me depararei com o canal, tive consciência que, de facto, a cidade existia.
é algo que me acontece com frequência.
só compreendo que determinadas coisas existem quando entram pelos olhos dentro.
por isso tenho errado tanto.
com as pessoas principalmente.
(isso é o que mais me preocupa.)
li algures uma vez que os japoneses são exímios em valorizar o erro.
consideram-no algo positivo, dizem que impulsiona o processo evolutivo.
é uma oportunidade de aprendizagem.
nós, em contrapartida, condenamo-lo, reprimimo-lo e desprezamos todo o fracasso.
também já interiorizei essa ideia.
e por isso tenho pavor de falhar.
e, ao sentir-me assim, sei-me incompetente.
incompetente porque não tenho capacidade para lidar com o fracasso.
sinto-me débil, susceptível.
e creio que é isso que se sente quando se tem medo.
e eu tenho muito medo.
e quanto mais medo tenho, mais medo de ter medo sinto.
porque o medo é paralizante.
há quem diga que o medo não é tão mau, pois faz-nos ponderar e pensar.
talvez seja verdade.
impede a impulsividade.
e ao sermos impulsivos incorremos, frequentemente, no erro.
e já sabemos o que o erro, entre nós, implica.
foi com esse quadro que sonhei naquela noite.
mas era natural, pois nessa noite finalmente repousara em casa depois da viagem a Veneza.
Veneza, que anos antes me fascinara à chegada.
mal pus os pés fora da estação e me depararei com o canal, tive consciência que, de facto, a cidade existia.
é algo que me acontece com frequência.
só compreendo que determinadas coisas existem quando entram pelos olhos dentro.
por isso tenho errado tanto.
com as pessoas principalmente.
(isso é o que mais me preocupa.)
li algures uma vez que os japoneses são exímios em valorizar o erro.
consideram-no algo positivo, dizem que impulsiona o processo evolutivo.
é uma oportunidade de aprendizagem.
nós, em contrapartida, condenamo-lo, reprimimo-lo e desprezamos todo o fracasso.
também já interiorizei essa ideia.
e por isso tenho pavor de falhar.
e, ao sentir-me assim, sei-me incompetente.
incompetente porque não tenho capacidade para lidar com o fracasso.
sinto-me débil, susceptível.
e creio que é isso que se sente quando se tem medo.
e eu tenho muito medo.
e quanto mais medo tenho, mais medo de ter medo sinto.
porque o medo é paralizante.
há quem diga que o medo não é tão mau, pois faz-nos ponderar e pensar.
talvez seja verdade.
impede a impulsividade.
e ao sermos impulsivos incorremos, frequentemente, no erro.
e já sabemos o que o erro, entre nós, implica.
não é o Império das Luzes. mas podia ser
24 de Outubro de 2005
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Saturday, December 1, 2012
Frase do Dia #35
Indaguei na minha memória e estou convencida que nunca li um autor norueguês antes. Estreei-me com Kjell Askildsen e Um Repentino Pensamento Libertador (título sugestivo, hein?) e não estou nada arrependida. Quando muito, irritada por só agora ter iniciado a leitura. São uns quantos contos dos bons e a forma como o senhor vai expondo as relações entre as pessoas - pai/filho, marido/mulher - é crua, reveladora e muito realista. Só posso dizer: «gosto muito».
«Na realidade não podemos evitar ser quem somos, pois não? Estamos completamente à mercê do nosso passado, não é? E nunca fomos nós que criámos o nosso próprio passado. Somos flechas disparadas do útero da nossa mãe, e aterramos num cemitério. Que importância tem então - no momento de aterrar - se voámos alto ou baixo? Ou se voámos para longe ou não, quantas pessoas magoámos pelo caminho? Isso, disse Vera, não pode ser toda a verdade.»
Let's hope not.
«Na realidade não podemos evitar ser quem somos, pois não? Estamos completamente à mercê do nosso passado, não é? E nunca fomos nós que criámos o nosso próprio passado. Somos flechas disparadas do útero da nossa mãe, e aterramos num cemitério. Que importância tem então - no momento de aterrar - se voámos alto ou baixo? Ou se voámos para longe ou não, quantas pessoas magoámos pelo caminho? Isso, disse Vera, não pode ser toda a verdade.»
Let's hope not.
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